O Conto Que Eu Gostaria de Ter Escrito 
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A Partir de Hoje (16/01/2005), este Blog passará a publicar os Contos que o seu administrador - no caso eu - adoraria ter escrito e não soube. Tem por finalidade homenagear e divulgar outros autores. Raymundo Silveira

 

Segunda-feira, Julho 03, 2006

 
Habanera

Elaine Pauvolid


Supunha viúva a dita. Talvez solteira, mas, homem nenhum se via dentro daquela casa. Vez por outra adentrava uma amiga, saía logo, o tempo de um café. Dividia o sobrado com uma outra muito magrinha e bem mais velha, de uniforme.

O nosso amigo do apartamento tinha uma mulher vivinha, que lhe meteria a mão, soubesse destes desvarios. Sexagenário, aposentado de um banco já falido, era mais um resto do que um homem inteiro, pensou de si muitas vezes. Se Amância desconfiasse de qualquer olhar de esguelha para algo feminino vinha-lhe com humilhações, palavras terríveis que ela parecia guardar para o momento específico do açoite. Carlos calava. Para que argumentar, para que resistir? Nunca houve motivos reais para ciúme algum. Mas, desde que viu a senhora do sobrado da frente pela primeira vez, seu sangue tem fervido como nas épocas de meninote. Há seis meses moravam no apartamento. Há três meses fitava Carmen. Se o nome era este, ele não sabia. Era assim que a ela se referia de si para si.

Ficaria eternamente a fitar Carmen? Deixaria a mulher da vida dele passar assim, cantando somente, sem nem tomar conta de que ele existia? Não, isso não poderia ser! Resolveu numa quinta-feira, comprar flores e bater na casa da futura amante. Foi com tudo, sem receio, sem temperança e sem propósito maior que o de vencer a si mesmo. Atendeu à porta a empregada, Antonia. A mulher não enxergava bem e parou na frente do homem ensandecido arregalando os ouvidos.
- Gostaria de falar com a dona da casa.
- E o nome do senhor?

A mulher pediu licença e fechou a porta novamente com todos os ferrolhos. Vizinho da frente não é apresentação. Poderia ser algum ladrão. Carmen apareceu com os peitos apertados sobre a sacada. Chamou-lhe e perguntou o que queria. Carlos levantou os olhos timidamente. Quando os dele encontraram os de Carmen, um calor intenso atravessou a alma abrindo-lhe os braços, erguendo-lhe o rosto e o fazendo cantar ¿Toreador¿. Estalava os dedos e sorria numa alegria tão intensa que Carmen virou Carmen, Antônia sorriu da sala e Amância, sob o chuveiro quente, não ouviu senão a própria voz que cantava a habanera.


Elaine Pauvolid
pauvolid@olimpo.com.br
www.elainepauvolid.net
www.aliasrevista.net
Sobre a autora:
Elaine Pauvolid, poeta e ensaísta, lançou o primeiro livro de poemas em 1998, "Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela...¿ , publicou artesanalmente o livro Trago, em 2002, com prefácio de Gerardo Mello Mourão, e, em parceria com os poetas Márcio Catunda, Tanussi Cardoso, Ricardo Alfaya e Thereza Rocque da Motta, lançou Rios, em 2003. Possui vários ensaios sobre literatura publicados em periódicos eletrônicos e impressos. Edita desde 2000 a revista eletrônica de cultura Aliás, www.aliasrevista.net. Atualmente é aluna do curso de artes plásticas do Parque Lage. Maiores informações sobre a autora: www.elainepauvolid.net. Seu e-mail: pauvolid@olimpo.com.br






Terça-feira, Junho 27, 2006

 
O pobre diabo

Por Elaine Pauvolid

Se tivéssemos um bom regaço para descansarmos de nossas batalhas, talvez dormíssemos mil noites através delas. Das donas dos regaços. Mas, só temos um pouco de conhaque guardado pelo capitão ¿ ora sim, capitão... e um monte de homens amontoados e fedidos. Sim, as batalhas foram muitas. Também em quantidade tivemos mulheres. Belíssimas, outras horrorosas, doentes ou sadias, todos nós aqui tivemos muitas. Mas nesta noite e nas outras tantas que se passaram desde o dia terrível não temos nem mulheres, nem álcool e nem fumo. Nada que nos possa libertar da lembrança terrível de nosso fracasso, ou acalmar um pouco a nossa sede de vingança.

Por ora, a lua está conosco. O mar não está agitado e talvez cheguemos em terra antes do final da semana. Meu Deus, mas que saudades de Joana... Sinto o seu cheiro no meio desta imundice. O cheiro que ainda não conheço por completo e isso é o que mais me inebria. Um cheiro doce e limpo, lavado dos destinos e passados que me rodeiam. São alvos dezesseis anos encarnados numa flor, que de mim só conhece a melhor parte. Ah, mas que terror brotaria dos seus olhos se me visse agora e sentisse o cheiro fétido que brota desta cama de tábuas. Ah, se me visse agora, jamais me reconheceria. Viraria o rosto ao pai... Ele me olharia nos olhos, tocaria as costas da filha e a tiraria daqui muito rápido. Rápido o suficiente para que ela não se desiludisse tão cedo e estragasse os planos de nosso casamento. Eu, um homem honrado. Honrado pelo dinheiro que trago nos meus baús. De honra só conheço a da espada e sei que ele está me vendendo a última das filhas, por uma ninharia.

No dia seguinte às minhas divagações sobre o amor, pareço acordar em outro mundo. O sol não permite mais nada de doçura. Mais que o sol, os risos e gargarejos dos homens ao meu redor, trazem-me a um mundo árido. Meu corpo não me pertence tanto como ontem, ou eu sou outro, diferente de ontem. Tão diferente que Joana não me diz mais do que uma leve bruma do passado. É hora de acordar. Jogar água na cara suja e falar em mortes. Muitas mortes. Principalmente a dos responsáveis por nosso degredo. Se eles não nos acharem antes, nós os acharemos.

Não me agrada lembrar do horror de nosso combate. O ódio me faz salivar e não querer mais nada que o gosto de fel ainda mais forte em minha boca. Encho-me da água que posso usar e a atiro longe, como que para evitar que ela me lave de minha vontade de limpar meu nome da mancha da humilhação. Estávamos dormindo quando fomos atacados. E bêbados. Eu sonhava com uma mulher. Há quanto tempo não sinto o carinho de uma mulher... O abraço do sonho tornou-se o tiro no braço. Só para me acordar, foi o tiro. Mas, foi impossível acabar com a chacina. Usaram facas. Mataram muitos que dormiam. E eu não consegui pegar nem ao menos um dos cafajestes. Estávamos tão despreparados que só nos foi permitido pular na água da vergonha e nadar quatro horas seguidas em direção ao nada. Sorte termos encontrado onde flutuar. Nossos braços não agüentariam muito tempo. O pior foi escutar o pedido de socorro dos que não conseguiam usar os braços nem as pernas. O pior ainda está por vir e nós seremos os algozes. É assim que devo pensar. Esta é a única chance de eu ainda poder ter Joana e um pouco de paz.

Teremos que esperar quanto tempo para sermos descobertos? O único lugar em que poderíamos nos esconder seria nesta choupana e nesta ilha. No raio de quilômetros de onde estávamos, é a única em que um ser humano ferido poderia chegar, por mais forte que fossem seus braços e sua raiva. Diabos, que golpe sujo, o de atacar durante a noite um bando de homens bêbados e desarmados...

Isso me faz lembrar os tantos que matei da mesma forma. Mas faz muito tempo. Meus colhões ainda não conheciam o vaivém do amor... Ah, o amor... Talvez rasgasse aqueles homens porque não tinha ainda povoado a carne no amor... Não tinha cravado meu enorme e guloso membro em carnes quentes... Sim, faz muito tempo.

Eu também poupei muitas vidas, inclusive a de padres, mulheres e crianças... Depois que consegui comprar um lugar onde eu possa morrer em paz, passei a matar menos, a selecionar quem mataria... E é isso que é pior, passar por isso a esta altura da vida. Há tempos que não sentia este amargo na língua, esta secura por sangue...

Mas estamos muito à mercê de qualquer ladrão barato nesta margem d`areia, amontoados neste barraco. Qualquer animal selvagem também nos atingiria do jeito em que estamos. Deve haver alguém à espreita. Não falta muito e nos atacarão. Onde estarão os miseráveis? Os covardes e sem alma? Bando de perdidos, sujos e infelizes... E morrerei na mão destes homens crus, que, caso morressem nesta última batalha, não teriam onde enterrassem seus corpos nus e humilhados.

E se morro aqui? Também ficarei perdido? Um naco de carne como tantas vezes pareci e resisti. Quem me levará à minha casa e tratará de dar-me um enterro de homem? Ninguém. E que farão de minha casa os meus vizinhos, os emprestáveis, que sempre me olharam de soslaio pela origem dos meus bens? Decerto o Estado tomaria minha casa, e a reformaria, e a benzeria e lá colocaria uma família da cavalaria. Um jovem tenente, sua jovem esposa e seu par de filhos limpos...

Preciso fugir daqui, o quanto antes. Se morro na fuga tanto melhor que morrer numa luta em que não há chance de vitória. Embrenho-me agora mesmo por estes matos, sigo o quanto for possível, cruzo a ilha, torno-me selvagem, mas, sobrevivo. Danem-se dinheiro e casa. Que façam bom proveito os que ficam para trás.

Adeus, Joana... Deixo-lhe também à espera. Ficarás velha e ressequida a me aguardar, a se guardar... Mas, preciso fugir da morte. Preciso sobreviver e será difícil encontrar o caminho de casa. E se encontrá-lo, e se voltar, Deus queira que esteja à minha espera. Seu pai não tardará em vendê-la a outro quando souber do que aconteceu e calcular a minha demora. Prejuízo meu esta viagem, perdi você, perdi meu futuro calmo. Mas, o que esperaria da vida um pobre diabo como eu?

Elaine Pauvolid, poeta e ensaísta, lançou o primeiro livro de poemas em 1998, "Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela...¿ , publicou artesanalmente o livro Trago, em 2002, com prefácio de Gerardo Mello Mourão, e, em parceria com os poetas Márcio Catunda, Tanussi Cardoso, Ricardo Alfaya e Thereza Rocque da Motta, lançou Rios, em 2003. Possui vários ensaios sobre literatura publicados em periódicos eletrônicos e impressos. Edita desde 2000 a revista eletrônica de cultura Aliás, www.aliasrevista.net. Atualmente é aluna do curso de artes plásticas do Parque Lage. Maiores informações sobre a autora: www.elainepauvolid.net. Seu e-mail: pauvolid@olimpo.com.br








Quinta-feira, Março 16, 2006

 
Palmas e Tochas

Nilto Maciel

Abriu a porta e o som do piano o inundou todo. Não conseguia enxergar nada. A não ser o palco, o pianista, o piano, mesmo assim sob uma luz pouca. Tateou espaldares de cadeiras. Tocou os dedos numa orelha. Ouviu um muxoxo feminino. Seguiu a passo de medo. E se não encontrasse uma cadeira vazia? Já quase acostumado ao ambiente, ainda mal enxergava as cabeças dos espectadores. Todos em silêncio, atentos à música vinda do palco. O artista não tirava os dedos das teclas. O retardatário parava, forçava a vista e nada de ver onde sentar-se. Caminhou mais para as primeiras filas de assento. Diante do palco finalmente viu uma cadeira vazia. Sentou-se, ajeitou-se e olhou para o homem de terno preto no palco. Conhecia a música. Talvez de Haendel. Ou seria de Grieg? Nunca conseguia distinguir um compositor de outro. Apesar de dormir ouvindo música erudita. Abominava música popular, principalmente as vozes. Admitia um chorinho. Os espectadores nem sequer tossiam ou espirravam. Pareciam pasmos, extasiados. Fitou a vista outra vez no homem do palco. Parecia encurvado, vestido de smoking, cabeleira desgrenhada cobrindo-lhe o rosto. Passava de uma música a outra, sem intervalos, incansável na sua arte, no seu ofício de pianista. A platéia mal suspirava, contrita. Talvez muitos homens e mulheres cochilavam, dormiam até. Não roncavam, no entanto. Observou com mais atenção as mãos do artista. Não, não podiam ser mãos. A menos que estivessem cobertas por luvas grossas. Mirou mais aos membros do homem de smoking. Sim, eram garras, jamais mãos humanas. Seriam de lobo? Ou o músico, coitado, carregava um defeito grave? Doente, malfeito, deformado, um monstro na aparência. Então como conseguia tocar tão perfeitamente? As pessoas não teriam percebido ainda a deformidade tão visível? Ou perceberam, mas não deram importância àquilo? Ou estariam ruminando suas conclusões, sem terem com quem falar, medrosas? Cochichou ao ouvido de um vizinho. Quem era? O surdo parecia dormir. Como podia um surdo ouvir música? Voltou-se para o outro lado. Quem era? O vizinho sussurrou: Offenbach. Não, não queria saber o nome do compositor, mas o do pianista. O vizinho quis se irritar, mas segredou ainda: Não lhe interessava o pianista. Um desconhecido. O homem insistiu: Você está vendo o estado dele? Tudo muito obscuro. Como não sabiam o nome do pianista? Seria em razão da obscuridade do palco ou do obscurantismo dos ouvintes? Resolveu levantar-se e dirigir-se à beira do tablado. Abaixar-se-ia, iria de joelhos, arrastando-se. Ninguém o veria naquela posição. Olhou com mais afinco para o artista, suas garras. Não havia dúvida, tratavam-se de garras. E bem fortes. Sondou o rosto do homem de preto. Visível o focinho de lobo. Como os outros não percebiam isso? E a cauda, a descer para o chão? Quis gritar, dar um aviso ao público. Não, melhor calar-se, suportar aquilo, aquela angústia, o medo, o pavor. Melhor retirar-se devagar, de joelhos ou pé ante pé e deixar aquele ambiente. Fechou os olhos. Não queria ver aquela monstruosidade. Súbito bateram palmas, mais palmas, estrondosas, contínuas, irritantes. E as luzes se acenderam, feito tochas.

NILTO MACIEL é cearense de Baturité e residiu por 25 anos em Brasília, devido a compromissos profissionais. Em meio à burocracia excessiva e a intensa vida pública que rondam a rotina da Capital Federal, encontrou tempo para conciliar os afazeres com a vocação literária. Ao todo, publicou 14 obras, sendo um livro de poesias e 13 volumes em prosa - romances, novelas e contos -, alguns com premiação nacional.



Sábado, Agosto 27, 2005

 
OS OLHOS DO CEGO

de Marta Rolim

Moisés era cego em 1995. Estava em Porto Alegre, num encontro evangélico, quando escutou um irmão dizer que havia insetos em seus cílios. Moscas oscilavam nas celhas.
Água fria no rosto; costumava se lavar ao despertar no JK, à rua Lima e Silva. Acordava e percebia os espaços vazios do cômodo, ocos reverberando; um talher do vizinho explodindo contra o piso; um guincho de criança varando as argamassas. O lavabo, a torrente. Que quarto de hora seria? Manhã, tarde sitiada por nuvens, noite de meteoritos?
"Saber da cor do tempo é preocupação dos videntes! Tanto faz que cor se dá ao transcorrer das horas. Dia e noite não existem, abstrações. As horas são todas brancas. Nos preocupam os ruídos e os movimentos, as coisas que podem atropelar ou morder" - discursava para si.
O som. O deslocamento. Abrir os olhos num quarto de hora sem cor. Descerrar os olhos num ato reflexo, como quem abre a mão que não mais existe.

Saía à noite, rumo ao alvoroço dos bares... Voltava para casa muito depois de rondar as mesas vendendo incenso, depois de tropeçar num milhar de cadeiras portáteis nas calçadas e sorver alguns goles gentis de cerveja. Aquele trago frio e o zunzunar das gentes feito um enxame de moscas diante da bengala de Moisés, como se ele ostentasse o cajado do antepassado de mesmo nome. O Senhor das pragas, do Egito antigo à Lima e Silva.
Não tinha sensibilidade nos olhos, nenhuma. Globos mortos. O JK com cheiro de fumaça doce, o imóvel palmilhado, reconhecido pelo inquilino como um cupim aos seus labirintos. Mas a mácula de café e o molho derramado no assoalho podiam putrificar por semanas. O rosto de Moisés criando crostas; cúmulos insuspeitos.
Então as moscas vieram.

Duas semanas antes, a voz do irmão, bem humorada, o avisara:
- Com licença, com licença, tem uns insetos nas suas pestanas!
Depois, sua risada incontinente. O farfalhado do cristão chovendo no ar. Moisés riu também, mais por cortesia. Só que logo foi sentindo um estranhamento: os olhos, as moscas e a graça toda num voltear desordenado. O farfalhar, que brotava de si e do outro, foi se tornando ruído de varejeiras.
Calou os dentes.
Estava cônscio dos seus olhos, estavam no alto, abaixo da protuberância da testa. Sabia daquela zona amorfa do seu rosto, porém, agora havia as moscas.
Levou o indicador até o canto do olho direito, próximo ao lacrimal, muito devagar. Depois subiu para a borda da pálpebra e perseguiu as pontas dos fios. Encontrou uma coisa mínima. Com os dedos capturou-a, já a esmagando um pouco.
- O que é isso aqui? - perguntou ao irmão, esticando o dedo na direção de sua galhofa.
O irmão tossiu, pareceu aprumar o peito e pôs-se a explicar, em detalhe, a aparência dos insetos.
Esfregando o indicador contra o polegar, Moisés tentou reconhecer a criatura. Apesar do melindre e do tato hábil, esfacelou a pequenina mosca antes mesmo de tirá-la de seu habitat. Uma umidade nodosa esparramou-se.
- São moscas, umas cinco ou seis em cada vista. A que está no seu dedo, já era!
Revolveu os globos, giros incompletos. Velha mania de buscar um ângulo, como se mirar fosse possível.
Imaginou dez ou doze coisinhas habitando as esferas natimortas.
- O que fazem? - indagou.
- Desculpe - disse o irmão - acho que se alimentam dos seus olhos.

Assim Moisés soube da vida que ocupara os vãos debaixo da sua fronte. Não, não lhe devoravam os olhos, ainda que ele nada sentisse se assim o fizessem. Apenas sorviam o caldo lacrimal, que de algum modo as atraíra, talvez por causa dos sais. O irmão confirmara, depois de renovado exame: "não te preocupes, não fazem nada, só voam de vez em quando e sugam a umidade dos teus olhos".
Não o incomodavam, esses dípteros.
Estava naquele encontro evangélico em 1995, em parte porque queria vender as caixas de incenso, em parte porque tinha uma rala esperança de ser salvo. Aquele tipo de esperança que ronda os necessitados e não responde aos apelos racionais. Antes assim, há certezas que estraçalham como onças.
O culto já acontecera e Moisés havia se livrado de algumas varetas perfumadas. Se não compravam pelo olor, compravam pela culpa enjoativa que sentiam ao verem um cego na luta.
Nesse ínterim, descobriu os insetos.
Passou a lavar o rosto bordejando a zona ocular. Imaginava seus olhos como lagos, corpos de água translúcida em cujas margens ciliadas sobrevoavam mosquinhas. Um pequenino oásis. E as dez ou doze vidas a ir-e-vir saciar a sede no poço das pupilas.
Olhos vivos.

Lá estava ele, na noite da Lima e Silva, recebendo goles bondosos. Vendia incenso, até desviava de umas cadeiras antes de colidir em outras, e quando Moisés se aproximava, orientado por sua bengala, o som das gentes reduzia, como as águas do Vermelho se fazendo de obedientes. Entoava sua lorota para o grupo à mesa e vendia algumas varetas de jasmim. Assim que dava as costas, as águas desabavam e o vozerio retornava em ondas. Foi então que uma mulher deu um grito.
Agarraram-no. Houve desordem, parecia briga. Pedia calma, ouviu mais gritos e palavrório, um bulício! Desconfiou que era assalto, por isso deixou que o conduzissem pelo entrevero. Foi parar no hospital.
- Tem uns insetos nos seus olhos - lhe disse o doutor.
Escutou o barulho de talheres e o som de borracha estirada batendo.
- Nós vamos limpá-los agora.
- Ó, não precisa! Não há porquê, essas mosquinhas não me incomodam! - exclamou com certa alegria.
- São Benedito, valha-me Deus! - berrou o doutor com repentino asco na voz - Não estás entendendo camarada, o teu caso é grave!
Moisés se pôs a discursar, queria esclarecer ao gritalhão o quanto gostava de ter alguns insetos na orla da sua córnea. Que se não tinha...

Acordou como quem ressuscita. Hora extraviada. Os pára-brisas leitosos; passos macios ao longe; cheiro de cozido. Era almoço ou ceia? Uma fincada nas vistas e descobriu que usava bandagem. Teve medo de encontrar dois buracos sob os panos.
- Tem alguém nessa porra? - urrou.

O eviscerador veio lhe apresentar as Esferas de Mulles, que depois seriam revestidas por lentes esclerais pintadas.
- E as minhas mosquinhas, doutor?
- Tinha uma larva saindo da tua pupila. A calota corneana estava cheia delas!

Voltou à rua Lima e Silva com olhos azuis. Orientaram a mandar poli-los a cada três meses e não usar álcool para limpeza.
- E a cerveja, doutor, posso tomar cerveja?

Moisés ainda era cego em 1996. Andava em Porto Alegre, num encontro pentecostal, quando ouviu um irmão dizer que havia aranhas nos seus olhos. Nas concavidades oculares, duas teias redondas e espraiadas. Os fios delgadíssimos presos às sobrancelhas e aos cílios inferiores. Pairando sobre as teias, aracnídeas de oito olhos encaravam o mundo.



Sábado, Agosto 13, 2005

 
Primeira conversa

Daniela Duarte

Primeiro você nasce, depois se desenvolve, depois adquire consciência, ou não, cresce, muda, volta a ser o que era, cresce mais, adquire sentimentos, pode ser a parte mais traumática. Você pode se magoar profundamente, não, não pode evitar, também não sei porque, faz parte. Depois de adquirir sentimentos você também é capaz de despertar nos outros...Acho que até mesmo antes, porque os outros sentirão o que eles desejam sentir, não que eles possam controlar, mas talvez possam idealizá-los, se você estiver no caminho, você vira o objeto do desejo...

Obviamente você não precisa corresponder, o objeto pode ser indiferente, se rebelar, aí está feito: Um clássico da saga do ser humano!

Se você acha que o objeto ao se rebelar acaba com os sentimentos de quem o idealizou, está enganado, porque quem sente, também é um joguete do sentimento.

Está muito confuso?

Quer continuar?

Está se divertindo!

Então entenda, que mesmo você oco, vazio de sentimentos, não descarta a possibilidade dos outros tentarem de todas as maneiras integrá-lo nessa confusa teia de suspiros, sensações, olhares, jogos, impressões, desejos, libido, identificações, dor, medo, ciúmes, delírios e até febre.

Você estava achando que é apenas mental essa fase da vida? Não, não, não, não, não! É física, dói no corpo, no dorso, na bacia, na língua, na boca, na boca do estômago, nas fibras, nas células, na face, nos olhos, mãos, dedos, cabeça, nuca, cabelo, dói, dói, dói e passa.

Pode passar bem rápido se o objeto morrer!

Mas isso é outra história, ainda não chegamos na morte, porque existem várias...

Você nessa altura pode optar por padecer, definhar, ficar moribundo, mas pode simplesmente acordar um dia...Tomar banho, enxugar o rosto, o rosto, o rosto, enxugar o corpo, os pés, a coluna, enxugar as mágoas e entender-se só.

Então você cresce, adquire consciência, adquire sentimentos...

Eu vou voltar um pouco, porque quando você adquire consciência, você muda de tamanho:

"Você vira mundo e o mundo não vira você", isso precisa ficar na sua memória, mas é uma opção sua entender como quiser.

A beleza não é uma fase da vida, você nasce com ela, não estou falando de carne, de invólucro, do que é mortal, estou falando dessa palavra que não cabe inteira no céu da boca, estou falando de um estado antibélico do ser humano, desse estado líquido... Infinito por ser de outra matéria, contraditório porque é intocável.

Necessariamente somos vários em um só corpo, somos de origem antiga, mas nova comparada com a terra, somos uma boca, quando não aceitamos ser dezenas, centenas, milhares...

Por isso quando essas legiões de você mesmo aportarem e pedirem passagem sinta, só peço que você sinta, depois pode fazer o que precisa ser feito...Eu já matei muitas de mim por aí.

Não existe culpa, temos pouco tempo, não precisamos de doutrina.

Ainda estou falando da consciência, você precisa seguir os seus instintos, descobrir como preservá-los...

É isso mesmo, preservá-los...Porque é muito fácil virar impostor, fingir que está vivo.

Aprenda a descobrir quais de você vão morrer, alguns nem precisam, simplesmente são absorvidos por outros, outros são fundamentais, por isso você precisa se aliar a eles, para combater aqueles outros que são de natureza hostil, destruidora, parasitária.

Você identifica vários "Eus parasitas" em diversos cargos de poder, os eus parasitas destroem o hospedeiro, é claro que antes assimilam todo o conhecimento desse indivíduo.

Eus parasitas se identificam entre si, se atraem, se somam, e essa colméia de coletividade comanda, delimita, estípula, exige, cria padrões, foram eles que criaram a culpa, entende?

A culpa, as regras, guerras, normas, religiões, as convenções.

Seguindo este caminho, o das convenções, chegará um momento em que você deverá se perguntar, o que é uma mesa?

Não é loucura não!

Muitos já se perguntaram...Não fique me olhando assim, porque isso não é filosofia barata, encara como um exemplo...Um bom exemplo e me acompanhe!

Você dirá que é uma superfície que tem quatro pernas que a sustentam...Isso pode ser um banco, uma cadeira, uma cama, etc... Etc... Etc...

E qual a função desta mesa? Se você for literal na resposta, dirá que é uma superfície de apoio...Então porque precisamos de tantas superfícies de apoio que desenvolvem as mesmas funções?

Porque? Porque?

Porque precisamos de tudo isso; quarto, sala, banheiro, cozinha, escritório, escrivaninha, teto, piso, paredes, carros,

Asfalto, portas, portas, portas, portas, Janelas, ferraduras, gaiolas, jaulas, gás, gasolina...

Porque precisamos de roupas, sapatos, botas, guarda-chuva, guarda-roupas, guardanapos...

Não estou dizendo que precisamos destruir todas as convenções, o que eu estou dizendo é que precisamos mudar o grau de importância dado, precisamos eliminar excessos, baixar custos, costas, narizes, desintoxicar a fala, o pulso, o outro que seja!

Descalçar-se leva tempo, mas se o tempo é igualmente uma convenção, eu já o fiz ontem, ontem eu andei com os pés, eu comi como os pés, eu desenhei com os pés, andei asfalto, terra, mesa, elevador, balanço, balança, ônibus, portas, paredes, teto, prédios, fontes, abracei com os pés, cozinhei, afaguei, apresentei os dois na avenida; descalcei, descansei, descasquei, desprogramei, desfiz e voltei...Ah eu voltei outra!

...Com meus "Eus" salvos, meus eus são agora incontroláveis!

Você nasce, cresce, se multiplica...

Não sei ao certo como te dizer...Acho que meu egoísmo te diria que é uma forma de ser imortal...Mas não é.

É simplesmente gerar outro, até que esse outro adquira suas próprias imagens, até que esse outro aumente de tamanho, tenha uma vida esférica e vire mundo.

Você então envelhecerá, imagine como será...Dentro, bem dentro de você algumas coisas nunca mudarão, por isso talvez, quando você se olhar, talvez não se reconheça, mas isso não tem importância...Faz parte.

E então você...

- Depois que eu falei tudo isso você, você...

Não, não, não, não, não!

Sem chupeta, isso estraga os dentes, não vai querer andar por ai de aparelho, vai?

Chora, chora, chora...Isso também faz parte...Passa.




Terça-feira, Julho 19, 2005

 
Melado debruçado

ROSANE VILLELA

"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para ofertar meu coração".

Assim o menino dizia, através da janela de meu carro, sem sorrir, fazendo o acontecido debruçado virar melado. De chumbo, numa manhã ensolarada de outono.

Pelo retrovisor pude vê-lo afastar-se de minha hostil vidraça, dobrando-se, como sempre fazia, em um outro veículo, e cantando a segunda das cinco pedintes estrofes que costumavam marcar o tempo estacionado por ali:

"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para cantar outra canção".

Talvez o vectra prata pudesse ajudá-lo. O sujeito que o dirige tem pinta de ser bom. Não disse? Lá vai din-din para o carrinho. Quisera eu ter um, para cantar outra canção, onde a dobra da vida não melodiasse a quê veio, me deixando cheio de dívidas. Dobra danada, cobra vendada silvando, desde que apareceu, o paraíso. Hum!

Tudo antes tão retilíneo, sem revoadas, passaradas, tão lisinho... Não este ninho que veio enrolando o meu forte. Forte, isto mesmo, não, norte. Estou cansado de ler norte em tudo que é lugar. O norte abusou de mim, me afundou em intolerância, logo eu que fui o rei de seu oposto em vida.

"Sorria para todos, forte como um touro", falava meu pai, lá se vão mais de uns bons trinta e nove anos. "O sorriso, ao contrário do que muitos pensam, pode mascarar a determinação na sua quietude", ele continuava. E, afinal, ilustrando com um largo desfiar de lábios, finalizava: "Lembre-se: a sua direção, é você somente quem a governa, mesmo que ela seja desviada por algum acontecimento".

E eu não consegui apurar isso a tempo nas negociações, desgovernado pelos sorrisos que não eram os meus. A direção branda deles foi a mais dura. Tanto quanto esta que tenho sob as mãos, e que me lembra a necessidade de alinhamento...

"Ombros para trás, menino. Cabeça para cima. Queixo reto".

De alinhamento, meu pai entendia. Cansei de cair, mas não percebia. A pedra foi apenas um acidente. Quebrei o braço em duas partes, mas continuei firme, de queixo reto, cabeça para cima e ombros empertigados. O braço pesando a vergonha da dor de ver meu pai me consolar com seu comprido sorriso: "Isto, filho. Forte. Assim mesmo. É só uma abobrinha, vai passar".

Foi quando esfoliei a vontade de chorar, pois touro não se descasca com abobrinhas. E eu era o melhor dos touros, meu pai repetia.

Esfolia a vontade

Esfolia

Tá embaixo da tarde.

Só rindo. De onde veio isto? Vontade de quê? Já sei. De ter um carrinho, igual ao do garoto de rua e enchê-lo de, vamos dizer, possibilidades. Quem sabe, alguma decisão capaz, até mais tarde me ancoraria?

Novamente pelo retrovisor, vejo a irmã do menino brigando pelo seu direito de segurar o carrinho, e o pai, bêbado estabelecido no botequim da esquina, levando o bafo no cangote dela, a berrar pelo que diz também ser seu, de direito. O meu, enterrado, no cangote dos outros...

"Pai, tô precisando de dinheiro para pagar a ginástica. Preciso de umas três sweat-shirts para malhar. É roupa de última geração, velho. O suor não empapa e não incomoda. Mãe, faz um sorvete de marshmallow com banana e bota castanhas e calda de chocolate por cima. Pai, tá faltando requeijão. Traz na volta do trabalho".

Sorria.

"Patrão, e o meu ordenado? Pode me adiantar a gratificação de final de ano prometida? Estou pendurada em prestações e os juros estão subindo demais".

Sorria.

"Amor, tenho que deixar dois cheques na portaria: o do condomínio e o das cotas extras. Pode deixar que eu vou ao supermercado e compro o requeijão. Tenho mesmo de fazer compras. Ah! Querido, um tal de Gonçalo ligou quando você estava fazendo a barba. Ele me pediu para lhe dizer que o prazo para o banco acampar a firma ficou em duas semanas. Que banco, bem?".

Sorria.

"Nossa! Estou atrasada para o cabeleireiro. Depois você me explica, tá?".

Um longo percurso numa manhã de outono onde nem sorvete tem licença para se guardar...

"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para ofertar meu coração".

O menino, repetindo a primeira parte de seus versos na minha vidraça, me faz perceber que nem um milímetro eu andara neste embirrado trânsito, onde só o sinal canibal pisca, agora, para a esperança.

Meu carro não é vectra, mas corre. Muito.


ROSANE VILLELA nasceu em 1953. Formou-se em Letras pela PUC/RJ ( Português/Inglês ) em 1976 e trabalhou como professora de inglês nos cursos Oxford e Ibeu. Seu livro de estréia, "Navalha no verso", foi publicado pela 7Letras, em 2000. Foi selecionada para a seção Quatro Poetas da Revista Literária Livro Aberto, Junho/Julho 2000, e ganhou o primeiro lugar, no Concurso promovido pela Home Page, endereço www.geocities.com/poemasazuis, cujo único jurado foi Affonso Romano de Sant'Anna. Além do "Navalha no verso", um original inédito para um livro de poesia, o "Licor de linho", com recomendação de Márcio Vassallo, e um outro original inédito, cujo título é "Uivos dos Morros Cercantes", uma coletânea de contos, crônicas e prosa poética, com recomendação de Marco Lucchesi e Márcio Vassallo, são planos para futura publicação em forma de livro. No Jornal da União, da Paraíba, em João Pessoa, o jornalista e poeta Antonio Mariano escreveu que "a poesia de Rosane Villela tem marcas adjetivas que definem uma poeta de incursões promissoras: o lirismo original, inusitado, a ironia bem disposta, a consciência rítmica". Também, algumas poesias do "Licor de linho" e dois contos do "Uivos dos Morros Cercantes" foram publicadas no Correio das Artes, do editor Linaldo Guedes, da Paraíba.





Sexta-feira, Junho 24, 2005

 
Águas

Vera do Val

O velho trinca os dentes e verga o corpo, quase mergulha beira da canoa abaixo no esforço de içar a rede. Vem quase vazia, um siri mole ainda cai na água. Ele solta um suspiro, vai que se conforma, não há muito mais a esperar naquela soalheira toda que lhe arde os olhos, já meio cegos, e deixa a boca babona quase grudando. ... No meu tempo ... pensa , com raiva ... não tinha rede que me recusasse peixe nem quenga que não me alumiasse.... apanha os remos e as costas brilham escuras e lanhadas ... força .. .força... lembra do cais antigo quando varava noite em roda de jogo, cuspindo no madeirame, tocando o barco antes do sol e recusando peixe que não fosse marrudo ... daqueles que brigam pra morrer , estrebucham e te olham, zangados, com o olho brilhante que viu a iara no fundo do rio... isso não tem mais, a Iara se foi pras outras águas depois que abriram o porto e alumiaram tudo, coisa de gringo safado ... hoje essas lascas de peixe que não dá gosto ... te olham com cara de pecado ... de culpa ... arrego... não pelejam, não falam, cansados como eu ...
O velho não ria mais tinha tempo, perdera o gosto junto com os dentes e com D Maria das Dores, que se fora também, em uma noite de chuva, daquela que entra pela porta a dentro, molhando o corpo e enxovalhando a alma .... ela foi sem gemer a pobre, nem isso queria mais ... essa sina de vida que vai encolhendo a gente entra dia e sai dia ... se vai ficando pequeno, fala com o Negro e ele não responde mais .... tá surdo pra velho como eu, sem caricia de cunhã e nem riso de moleque. A canoa segue mansinha, que da pouca força dos braços e da leveza do peso, vai triscando a água, sem marola e nem chiado. Vai como se conhecesse o caminho, ela também cansada daquela faina diária, carcomida nas beiras, como se lamentasse o tempo, embalada pelo parolar do velho.

No casebre escuro e úmido, logo na beira d'água, ele mexe nas panelas, escalda o pouco peixe resmungando baixinho,ora reza,ora choraminga. Já está na hora ... passando ... Não tem mais pernas pra muita andança, nem riso pra pouca graça. A casa, como a vida, espedaça-se desde que D Maria se foi. Cai-lhe caliça na cama e na alma, a passarada entra pelo telhado e lhe faz titica sobre o fogão ... Ela amava passarinho, lembra. Passarinho e o véio dela ... Com olho de saudade ele roça os dedos na rede grande, agora inútil, pendente dos ganchos enferrujados, testemunha inconteste de tempo melhor, já perdido, já passado, tempo em que embalava, intumescida, o arfar do velho e o gemer de D Dodó, cheirosa e cheia de dengos.

Filhos tiveram quatro e três deles o rio levou, ciumento, em noite escura e de vento forte. O quarto, Rodamundo, rapagão sacudido, se embrenhara em busca de um mundo novo, pelos lados do Uruí, e dele nunca mais se tivera noticia.
D Dodó se conformara ... a gente ta aqui pra isso, um dia vai ... um dia vem .... Mas quando a água subia e o rio, prenhe, vazava nas margens, ela lembrava do filho. Dele já tinha esquecido o rosto e o andar , só guardava, queimando dentro do pensamento, os olhos escuros do curumim esperto, que um dia lhe mamara os peitos, e ouvia a voz da madrinha, brava, que aquilo não era nome que se desse pra filho, isso traria má sorte, menino sem benção tinha o destino traçado ... a gente bota filho no mundo pro que Deus quiser ... roda filho... roda mundo ... procura ... procura... O velho falava pouco e ela imaginava que ele tinha esquecido depressa, nem sonhava, a pobre, que, nas noites de lua, quando a água corria, serena e faladeira, ele se perdia a conversar com o rio que lhe trazia noticias, e lhe contava as proezas do moço que estava além , muito além, em margens distantes, cumprindo a sina do nome e das agonias do rio .... Nunca mais ... nunca mais ...

O velho apaga o fogo e vai puxando a cadeira capenga, arreda os restos de sobre a mesa, abre um espaço para o prato esbeiçado, a farinha e a pimenta. Cabeça baixa, mastigando como pode, cuspindo aqui e ali, engasgando com um ardor mais forte, soluçando com a secura da vida.

A noite já vai alta quando ele arma a rede no oitizeiro, o peito magro chiando, maldita tosse que lhe come o fôlego, armadilha da vida e do tempo. Estira o corpo seco, embala os olhos no marulhar do rio e se põe a falar sozinho. Conta causo, resmunga e vai rezando, essas rezas babadas de espera, reza misturada com praga, reza de velho que espera a morte.



Segunda-feira, Junho 13, 2005

 
Interlúdio em San Vicente

João Silvério Trevisan


um gosto de vidro e corte
um sabor de vida e morte
coração americano.
(Canção de Milton Nascimento/Fernando Brandt)


Eram as sete da manhã quando ele meteu a cabeça pela janela do trem e respirou o ar úmido e frio de San Vicente. Não podia mais duvidar. Estava ali, inteiramente em San Vicente. Ainda sentia restos de incerteza, o corpo débil de fome e medo, o medo que vivera naqueles últimos dias. Na fronteira, apesar da tensão, o trem se iluminara todo e uma velha canção crescera esganiçada e percorrera com súbita excitação a todos os passageiros, enquanto a voz antiga saudava naquela língua que, em sua fantasia, lhe soava como o som essencial da. América Latina: "Buenas noches, senõras y senõres. Están ustedes en la República de San Vicente. Bienvenidos sean, en nombre de nuestro pueblo hospitalario. Esta es la tierra..." Depois vieram as planícies molhadas, verdes e tranqüilas, a paisagem para ele inusitada, as vacas holandesas, as casinhas de pedra escura. Apesar de estar ali tão próxima, essa terra sempre lhe parecera mais distante que a Europa. Refletiu ligeiramente sobre o colonialismo, enquanto ia descobrindo uma secreta intimidade com aquela paisagem que ele amara antes mesmo de conhecer. Enterneceu-se por estar ali, e lhe invadiu um sentimento de alívio e uma momentânea esperança de estar movendo-se para frente, apesar de tudo. Afinal, queria buscar a certeza de que apenas voltava para o meio de irmãos por tanto tempo ausentes, estrangeiros. Depois, duvidou de tudo o que vinha pensando, achando-se um pobre romântico. Por sorte, a fronteira não estivera demasiadamente controlada, e essa sim lhe parecia uma certeza reconfortante porque objetiva. O trenzinho já tinha penetrado quilômetros dentro de San Vicente, seu apito e sua fumaça reencontrando os bananais familiares, e ele respirava com força os ares novos, quando o velho Chevrolet aparecera ao longe fechando o caminho, e todos os passageiros foram obrigados a descer, sem explicações. Ele ouviu alguém sussurrar "policía" e foi o bastante para que o pânico lhe acelerasse o sangue; pensou se não deveria fugir, depois controlou-se. Vários homens que usavam óculos de sol, apesar da noite, examinaram cada mala, sua valise inclusive. Ele buscava convencer-se de que não havia perigo, mas sabia que as metralhadoras dos agentes estavam carregadas com a morte e isso lhe cortava a respiração. Mais tarde, soube que procuravam armas de supostos guerrilheiros, que todos os caminhos estavam vigiados e que o país corria o risco de um estado de sítio imediato. Pensou que sim, aquela era a América Latina. Não conseguira dormir em toda a viagem porque sentira frio e fome, nesse seu primeiro dia em San Vicente. Então, às 7 da manhã, ele estava na capital. Olhou para fora e pensou como sempre fora difícil aos brasileiros sentirem-se latino-americanos. Havia uma neblina grossa dispersando-se pela cidade e já começava a cair numa chuvinha fina, européia, que era na verdade a chuva de San Vicente. Deixou a estação, para procurar um hotel barato. As pessoas passavam apressadas ao seu lado, agasalhadas e como que saídas de um sonho que já fora quase um pesadelo. Pensou no que poderia ter acontecido a seus amigos, onde estariam, vivos? torturados? destroçados? Viu-se desamparado como um bebê, mas evitou a melancolia para não sentir-se infeliz. Andou mais depressa, pensando deixar o passado definitivamente atrás. Entretanto, via o passado ali, envolvendo-o. As casas eram antigas, os carros soltavam fumaça e ensurdeciam com seus motores ancestrais, e homens velhos cruzavam por ele, incomodamente reais como uma luz que ofuscava. Andou sem rumo, com medo de pedir informação numa língua estranha. Por acaso, viu a tabuleta do hotel, num edifício que poderia ter sido novo no começo do século. Olhou as janelas quebradas, as portas comidas pela chuva, mas resolveu entrar. 0 tilintar de um sininho fez surgir o rosto pintado de uma mulher, chegando-se com seu cabelo matinal já enrolado e um velho peignoir de flores desbotadas. Ele engasgou na primeira palavra. E ela: Ah, que bién. Usted es brasilero, verdad? Pues aqui tenemos gente de todas partes. Las recámaras son chicas pero, ay, que servicio! Creame, señor, que usted no encontrará nada mejor y más barato. Además, tenemos agua calientita por la mañana... Ele dormiu até as 12, encolhido no meio dos cobertores que cheiravam a mofo, e quando acordou, estava decididamente longe de tudo, num outro mundo onde os tapetes persas já tinham sido vistosos e os móveis falavam de lembranças sem fim. Ouviu lá fora um rádio tocando um merengue distante e anúncios em espanhol que lhe pareceram quase ridículos. Comeu no próprio hotel, engolindo em silêncio enquanto a dona servia e falava: Ahora todo anda mal. Usted sabe, todo muy caro, hasta la carne. Este país ya no es lo mismo. Mire usted lo que come, esta carne fué nuestro orgullo. San Vicente alimentó el mundo, un dia. Y ahora, vayá, estamos aqui comiendo esta carnita que uno pelea para encontrar.

Ele procurou o furo no bolso do capote e tirou um minúsculo. papel amarrotado. Abriu-o e tentou decorar nome e endereço. Era a única referência que conseguira de última hora. Saiu e andou muito, respirando a fumaça dos carros, penetrando-se pouco a pouco daquela atmosfera estranha e incômoda que ele temia identificar, apressadamente, com a decadência. Buscava então descobrir alguma revelação escondida detrás das paredes e janelas e portas dos edifícios igualmente carcomidos de esquecimento. Cruzou um parque. As árvores pingavam-lhe pesadas gotas frias, sobre sua cabeça acostumada ao calor e ao suor. Depois, encontrou a casa que buscava. O senhor estava de viagem e só regressaria dentro de dois dias. Voltou para o parque e sentou-se num banco de pedra, pensando no que deveria fazer. Levantou-se para ir ¿ ir onde? ¿ e virando a cabeça recebeu o choque: viu os soldados que se espalhavam por entre as árvores. O terror de volta, ele pensou rápido; decidiu sentar-se outra vez para não despertar suspeita. Não conseguiu desviar a atenção deles, nem mesmo fixando-se na imensa estátua do herói nacional, coberta de pombos e de seus excrementos. Um soldado aproximou-se e lhe gritou algo que ele não compreendeu. Murmurou apenas que era brasileño, tentando buscar uma defesa para o medo que sabia estar brilhando dentro de seus olhos. E o soldado gritava mais e ele não podia entender, imobilizado no banco. Então sentiu o cano da metralheta no peito e automaticamente levantou-se. "Y por que no te paravas, carajo?¿ lhe disse o soldado e depois examinou seus documentos, perguntou-lhe o que fazia, turista? si, pero no puede estar así, nomás por ser turista; a caminar, a caminar. Ele caminhou então, no meio da bruma, como o foragido que era.

No segundo dia em San Vicente, ele dormiu até muito tarde, adiando a responsabilidade de sofrer o frio e a chuva. Cada vez que pensava em caminhar sem rumo, encolhia-se mais entre os cobertores. Acordou várias vezes e pensou ligeiramente que se acreditasse poderia rezar, pedir ajuda a um deus onipotente, um grande pai. Ao invés, ficou apenas olhando o vazio, sentindo vazios os sons de rádio, do lado de fora. No fim da tarde, sem outra alternativa, saiu de novo à procura de nada, entre os carros e todos os anciãos do mundo, depositados naquelas ruas. Diante de uma loja, julgou ouvir palavras em português. Tinha os olhos de um louco e nem percebeu que corria. Fugindo, estava dentro de um bar. Pediu um café. Tomou-o engolindo o gosto estrangeiro, desejando o cafezinho do passado tão recente. Não, não podia ficar triste, tinha o futuro pela frente, depois que o pior já passara. Com uma batida no seu ombro, a realidade chamou-o mais do que inesperada. Virou-se quase em defesa e viu as mãos gesticulando, as rugas do rosto e a boca que se abria sem som. Eram súplicas da desgraça, que lhe parecia um demônio, ou da loucura, esta loucura onipresente, a condenação demasiada para um só momento, uma só cidade. Na rua, fugindo outra vez em largos passos, pôs-se furioso consigo mesmo lembrando-se tarde demais que ele era parte daquela miséria, já no seu sangue, e não podia rejeitar a maldição como uma estranha, porque estava positivamente ali, entre os malditos. Sabia dessa sorrateira quase-morte, lutara com ela toda a vida e não tinha o direito de assustar-se como se tivesse sido um homem feliz. Pensou vagamente na felicidade e numa vaga proteção, enquanto regressava para a cama. Onde estou? Como salvar-me? Naquela noite dormiu tentando conformar-se com a possibilidade de lindos sonhos que o despertassem de um pesadelo, o seu.

No terceiro dia, ele levantou cedo, decidido a não entregar-se. Foi buscar de novo a casa do possível amigo. Atravessou outra vez o parque em bruma, olhou a estátua grotescamente adornada com a bosta dos pombos, quis sentir-se forte. Recebeu-o na porta da casa um jovem com cara de universitário. Quando se identificou e mencionou o amigo comum, viu o terror exposto nos olhos do rapaz. Foi imediatamente convidado para um passeio no parque e ali ouviu a voz aguda desculpando-se, no meio das árvores estrangeiras.

¿ Usted comprenderá. Hace mucho que no veo al amigo este. Y desde luego, no quiero meterme en nada de política, por favor. Usted me comprende, tengo a mi madre ya vieja y hermanos más chicos.

O rapaz ofereceu-lhe companhia, caso desejasse; usted sabe, por unas moneditas lhe encontraria una mamacita com quem se divertisse, e como! Pero mejor nos encontramos en el centro.

Olhava a praia então. Agradecera o rapaz e se fora, mas os dentes lhe doíam de frio e raiva contida. Sentou-se na amurada, olhou o mar barulhento, ouviu o vento que levantava a areia escura. O mar parecia trazer a tempestade em suas grandes ondas. E as gaivotas não lhe davam paz, ele que amava tanto as gaivotas. Mas também não sentia nenhuma tristeza, apenas olhava. Antes de acontecer toda aquela confusão e sua fuga, sempre se orgulhara de poder chorar. Agora devia conter-se, pensava, mas também não sabia porque. Devia manter-se frio como... Como o quê? Como um macho? Melhor ainda, como um herói! Riu por dentro, pensando nessas ficções que sempre o irritaram. Por um momento, escondeu o rosto entre as mãos e o cheiro de sal empurrou-o para adiante. Seguiu caminhando junto à amurada em ruínas e encontrou um homem a tocar violino, parado. Viu ódio no rosto contorcido que tirava sons finos e que brigava com o som mais e mais agudo. Andou devagar. Tentava comover-se com o vento arrebatando a música e levantando os negros cabelos daquele rosto em fúria, mas já não podia chorar. Enquanto deixava para trás o violino, lembrou de repente. Parou, para lembrar melhor e decidir se valia a pena.

Então buscou uma lista telefônica. Sim, o nome estava lá, com o endereço e telefone. Era um conhecido de um amigo dos velhos tempos, antes da luta. Telefonou, a voz respondeu neutra e depois sí, por supuesto, tanto gusto. Sentiu-se subitamente alvoroçado. Não lhe importava, ouvira uma voz falando-lhe tão perto e com ansiedade esperou chegar as oito. Até lá, recebendo na cara as sombras úmidas que encobriam San Vicente, ele descobriu o tamanho trágico de sua solidão e foi só nisso que pensou e foi essa a mais aguda dor que descobriu dentro de si, enrijecida e absoluta. Dirigiu-se para o endereço que conseguira e pelo caminho foi tropeçando com o sentimento de que estava só. Quando tocou a campainha, percebeu que implorava qualquer coisa parecida com um gesto, apenas pequeno ou obscuro, de afeto. Uma cara gorda de homem assomou pela janelinha e depois a mesma cara sorriu enormemente pela porta aberta.

¿ Soy el señor brasileño...

¿ Si, claro, yo lo sabía. Pase usted. Ay que divino país el suyo.. La gente brasileña, que bella gente, dios. Y la samba, me encanta, me encanta.
Era uma casa pretensamente burguesa, um falso ar de sofisticação nos pequenos bustos de compositores clássicos, móveis coloniais recém-fabricados, um piano, bibelôs por todos os lados e aquela harpa no centro da sala, como uma estranha:

¿ Que bella, no? Fíjese usted que me enloquecía el harpa. Pero no encontré sino esta; claro, no tiene nada que ver con esas harpas de las sinfónicas: Aún así me la compré. Es mejor que nada...

E ria muito o anfitrião, grandes risadas que pontuavam os intervalos rápidos entre um assunto e outro.

¿ Si le gusta, le pongo unas canciones folclóricas de San Vicente. A mi se me hacen bellíssimas. Tristes, pero bellas.

E chiava então o disco na vitrola, guitarras de San Vicente, um intenso som de nostalgia, a imagem que lhe estivera sempre no peito, sonhos sobre revolução, sobre continente, a voz de um povo e vários povos nas guitarras de San Vicente.

¿ Antes, todo aqui era una fiesta, en cualquier hora del dia y de la noche. Los más famosos casinos del mundo, los artistas de Holiud paseando con sus coches último modelo, grandes bailes, grandes orgías. Cuanto más escándalo había, más brillaba el nombre de San Vicente. Ay, pobre tierra mia. Ya se fueron los buenos tiempos.

Uma pausa, um suspiro, a música no fundo, os chiados, os bibelôs e a poeira infiltrada neles.

- Nos quitaron todo. San Vicente no es sino la sombra, la miséria...

Na outra pausa, terminou o disco.

¿ Pero basta ya de tristezas. Esas las tenemos sin pedirlas. Así que vamos a la cena. No es un banquete, pero el Arturo sabe preparar platos típicos. Y ricos, ricos. Usted va a ver.

Sentaram-se. Ele tinha fome e sede. Tomou muito vinho e sentiu-se mais tranqüilo, sem perguntar porque, mas sim, certa paz nas veias distendidas.

Depois, sorriu quando Arturo regressou vestindo um avental florido; parecia-lhe quase materna aquela figura que ia e vinha preparando o café. Olhou então para a parede oposta e descobriu um grande quadro de onde lhe sorria um toureiro, olhos chispantes, lábios sensuais e uma beleza que se irradiava através do rosto, lhe percorria a roupa brilhante e espraiava-se pelo vermelho interminável de sua capa. Olhou-o e os pensamentos correram velozes, por toda a vida passada, pequenos incidentes, paixões passageiras, solidão crônica. E não percebia que olhava como se beijasse e que lhe oprimia, nessa ocasião, a certeza de estar metido num charco sujo, escuro, nojento, pegajosamente presente ao seu corpo, de solidão. Quando voltou os olhos, mais que melancólicos, Arturo o olhava.

¿ Preparé un cafessirño brasileño. Ya me dirá...

Arturo apressou-se em instalar a bandeja, sentou-se, alisou o babado do avental e, enquanto servia açúcar, soltou uma voz lisa como veludo, sorrateira como nenhuma outra poderia ter sido:

¿ Así que a usted también le gustan los muchachos .

O outro sentiu-se um pouco incômodo. Depois fingiu mal-estar. Em seguida, entregou-se e baixou os olhos.

¿ No se preocupe usted. Yo sé muy bién que ya estoy viejo. No voy a hacer sugerencias inmundas, ni pensarlo.

Ele olhou os olhos de Arturo e Arturo compreendeu. Seria súplica ou simplesmente solidão, mas Arturo entendeu.

¿ Si gusta, puedo hacerle un regalo. Basta nomás llamar por teléfono. Papá Arturo ya tiene todo organizado, después de tantos anos...

Trocaram olhares, sem sim nem não. Depois, submergiram-no apenas os gestos sonhados, entre a permanência de fantasias insaciáveis, sempre, e agora ele descansava, paciente, saboreando a presença absoluta da realidade por chegar. Não esperou muito. A campainha tocou, a porta se abriu, e ele não quis olhar para trás nem antecipar-se, esperando que a realidade chegasse inteira diante de si e se apresentasse:

¿ Buenas noches. Me llamo Antonio.

Levantou os olhos devagar e encheu-os com a cor morena de um jovem índio e, enquanto olhava detidamente, teve pressa e imaginou que suas mãos tocavam já aquelas faces morenas e rosadas, aquele cabelo negro, os lábios grossos, os olhos feitos de mansidão e as mãos que caiam infinitas, esperando gratuitas um gesto. Ele pensou então que a beleza apaziguava, não, pensou, choca, maltrata, não, é tão somente bela, a beleza. E lembrou-se que nem respondera à saudação.

¿ El cuarto ya está listo. Ponganse cómodos. Y tu, Antonio, sé bueno con el señor. No, no agredezca, señor, es que quiero mucho a los brasileños. Pase usted, pase, pase.

Fechada a porta, ele apagou a luz, deitou-se e parecia dormir mas não dormia porque seu nariz se impregnava de todos os pequenos cheiros, o cheiro do jovem índio sobretudo, e queria apenas estar ali, gozando longamente a sensação de calor que se aproximava invadindo-o, aquele corpo envolvendo-o em silêncio de amor. Sem ruído, fechados os olhos, sem coragem de admitir senão a difusa crença da felicidade, por um momento tornada real, ele pediu:

¿ Por favor. Io necesito um abrazo.

E Antonio ouviu-o. E foi único e longo e jamais esquecido o abraço daquela noite.

¿ Pero señor, nomás un abrazo? Perdóname la palabra, pero esto es una tontería. Justo con Antonio, tan guapo, tan caliente, fuerte. Y a él le gusta muchísimo, yo sí se. Esto es como tirar perlas por la ventana.

No outro dia ele decidiu. Ainda havia névoa por toda parte, e frio e as casas arruinadas e os mesmos carros barulhentos de San Vicente. Importava-lhe apenas que ele se sentia seguro e decidira. Cruzou de manhã a neblina, pensando nalguma esperança, no futuro, naquilo que iria encontrar mais adiante, sentindo-se um perfeito foragido. Viajou horas de ônibus até o sul, no meio da bruma. Não esperou muito no porto. Viu ao longe o mar que era primeiro marrom depois verde e azul. Subiu as escadas do barco, olhou San Vicente detrás de si.

México, 27 de maio de 1975.


João Silvério Trevisan (1944) nasceu na cidade de Ribeirão Bonito (SP). Escritor com domínio da prosa, é ensaísta, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Estudou Filosofia. Recebeu inúmeros prêmios em teatro, cinema e literatura, dentre os quais o Concurso Latinoamericano del Cuento, em Puebla ¿ México, o Jabuti (três vezes) e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA (duas vezes). Tem obras traduzidas para o inglês, o alemão e o espanhol. Escreve para jornais e revistas de todo o País e do exterior.

Alguns livros de autoria de Trevisan:

Testamento de Jônatas Deixado a David (contos, 1976).
As Incríveis Aventuras de El Cóndor (romance juvenil, 1980).
Em Nome do Desejo (romance, 1983).
Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (romance,1984).
Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986).
O Livro do Avesso (romance, 1992).
Ana em Veneza (romance, 1994).
Troços & Destroços (contos, 1997).
Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998).


Texto extraído da revista ¿Ficção¿, volume II, exemplar n° 7, de Julho de 1976, pág. 82.






Sexta-feira, Maio 13, 2005

 

BE@TRIZ


por Bárbara Lia


Perhaps/Happiness-

(Beatriz conhece Dante em um Teatro ¿ ele fala da sonda Galileu ¿ que mesmo morrendo e se desintegrando no espaço continua mandando fotos à terra. Beatriz se extasia manda um e-mail para o Dante do III milênio ¿ Dante se emociona ¿ ambos amam a cultura árabe ¿ ambos são poetas ¿ ambos são místicos e platônicos ¿ surge uma correspondência estranha ¿ Talvez Felicidade ¿ Talvez Saudade ¿ E quando ele diz: Viva a rosa trans-física ¿ o extracéu ¿ ele não supunha que ela criaria uma dimensão poética ¿ onde as rosas são azuis e onde não há noites)







PRIMAVERA



Al-di-lá de la stelle,

A cada instante que a imagem tua baila em minha mente, nasce uma rosa azul no jardim do impossível. Extracéu de montanhas azuis, campo de flores. Adormecido na branca rede, no extracéu, és o guerreiro que percorreu os sete mares, questionou os deuses, e agora descansa. Paz transcendental neste rosto que amo, contemplo neste céu onde te isolo de todos olhares, mãos, anseios. Neste lugar sem noite, sem dores, espinhos.

Al-di-lá de la vita...

Isto supera Veneza, velas acesas, amor, amor e gôndolas.

O pássaro azul corta o céu de baunilha. Pressentes meu olhar, e teu corpo se mexe na rede bordada com fios de estrelas.

Velo-te enquanto dormes e o mundo segue sua rota de fúria, sem saber que dois poetas se amam al-di-lá, al-di-lá de la stelle. Contemplo o campo de flores e lembro Drummond:

¿Amanhecem de novo as antigas manhãs,

que não vivi jamais,

pois jamais me sorriram.¿








Ontem, no extracéu, tomamos chá de anis,

Diante de um poente branco.

No extracéu não há noites e pássaros pousam

Em nossa janela, enquanto tecemos mantos.

Você sorri, mais do que sorris agora, e estrelas

Fogem do céu-matéria para matarem a saudade

Do teu belo riso italiano.

Vez por outra, congelamos uma estrela fugidia

E a colocamos na parede de nossa sala.







¿nada se edifica sobre la piedra, todo sobre la arena, pero nuestro deber es edificar como se fuera piedra la arena¿

(Jorge Luis Borges)



Fortalezas medievais, amores de rochas que soavam eternas. Todas as fortalezas ruíram estrondo maior que o apocalipse. O real amor começa no apocalipse, depois dos desmoronamentos e maremotos. Surge o reino etéreo, de areia azul e rosas, flutua entre labirintos de estrelas. Flutua em uma dimensão que vive em um coração de mulher.

Passional ainda, mas banhada em lírios...

Intensa ainda, mas buscando o eterno...

Com sede ainda, mas do vinho que sacia...

Agora não são castelos de pedra, é uma cabana de sonhos.

Acolho-te como o herói cansado, o alquimista perfeito. Transformas o verbo em beleza que eleva que faz o coração banhar-se em águas de primavera, em fogo santo.

Tento narrar o inenarrável. Meus reinos sucumbiram.

Criei um céu, um extracéu, e te recebi como o homem que não é pedra é areia. Rarefeito, não é carne, é espírito, não é promessa, é presença. Colori de azul cada grão da cena, e ela se fez de pedra-real e eterna, imperecível.

Alojou-se na alma. Encanto. Beijar teus lábios, que são damasco, fruta rara, lábios sonhados. Criei um céu para alcançá-los, criei um céu da matéria que não desmorona, da anti-matéria, de amor e música, azul, azul, azul, para que nele te diluas. Para que te diluas em mim...







És o cavaleiro silencioso,

Que atravessa a guerra

Sem manchar-se de sangue,

Sem perder a espada.

Eu, Penélope,

Teço um manto

Da cor das auroras esquecidas

Enquanto anjos escrevem

Em um pergaminho azul

Entre astros,

Com fios de estrelas,

Os nossos passos.

Trilha marcada pelos céus,

E isto se chama felicidade.







Cinza. Saudade de quem nunca tive. Medo.

Enviei um cartão. Tela de Hokusai.

O Fuji, barcas naufragadas e o poema:



A flor de pessegueiro

É o teu sorriso.

O Fuji teus mistérios.

Meus barcos afundam e

E não te alcançam

Mar revolto de amor

Me envolve.

Já não quero o céu ideal platônico.

Quero a pele, o perfume que desconheço.

Ler o olhar.

Tocar os cabelos.

Viver.







Desfibrei o coração do príncipe e descobri maremotos e tempestades. A alma que voa ao éden é composta de infernos sísmicos e anjos abrasados de angústia. De labaredas de seda, e ele possui a luz por ter mergulhado nas trevas densas dos abismos sem reparação. Renunciou ao fútil. Aconchego de carnes claras, lábios grenás, arroubos de paixões mortais. Resistiu ao tédio de vôos assépticos por planícies perfumadas, chás em jardins, quartos com piscinas e gueixas. Renunciou ao sono ao som da chuva, lassidão total, em cetins bordados com asas de borboletas. Luz, gestos e palavras. Soube que a primavera chegava e com ela essa substância etérea que flana em tua alma, perfumada de desertos e lágrimas... Por isto me postei diante de um abismo de rosas azuis, construí um vale, um campo de flores, uma biblioteca imaginária onde repousam os livros sonhados pelos poetas, pois terias ali, bem mais que meus beijos, rosas azuis, cascatas. No abismo azul de Laetitia (alegria é o teu reino) Descobri: Somos provisórios, corpo que move a verdadeira essência ¿ pérola.







Li ¿Pergunte ao pó¿ ¿ John Fante. Você já leu?

Li e me peguei chorando em cenas, chorando de doer dentro como um corte. Amar dói, dói e dói e se não dói não é amor.

Fica comigo! Neste milênio sem sinfonias, nem amor, nem glória. Meio aos escombros deste mundo ateu. Fica comigo! Com meus anos, desacertos e mágoas. Fica comigo! Abrace meu corpo fustigado pelas tempestades da vida, cura minhas dores, alimenta-me com a sopa quente de suas palavras, aqueça-me com o teu calor do Saara, com tua beleza oceânica. Quero ser amada com meus sapatos rotos, com meu semblante maia, com meus medos, com meus segredos. Eu sei que é só uma história. Que John Fante criou uma personagem. Mas, era como a garota do livro era amada que quero ser. Ter vinte anos e cruzar a ponte e atirar-me em teus braços e olhar nestes olhos lindos e pedir - Fica comigo! O amor não nos visita todos os dias. Por que não abrir a porta?







COMO SUOR E AREIA

(Ainda sob o impacto de ¿ Pergunte ao pó)



Queria escrever com areia e com rosas e com a pele nua e com a lua e com este teu olhar que é um prefácio dos céus, e com as tuas mãos que são a beleza em forma de oferenda...Eu queria te amar, dedos enlaçados, uma sutileza de carinho de núpcias, rito do oriente, banhar teus pés em pétalas & perfume e secá-los com meus cabelos. E depois, quando meus lábios de Iracema beijassem teus lábios romanos. Então seria amor. Não seria essas palavras escritas em vermelho, preto, azul, nenhuma tela fria de computador, nenhuma folha de papel... Um pouco de vida.

Envolvendo-me inteira, no extracéu, em qualquer lugar, quero ser amada pelo poeta pleno. Quero! E isto é mais que poesia... Bem mais!







OUTONO



Concebo milhares de sóis. Sem parto ou dor. Sóis apenas.

Antes ¿ Asteca. Sacrifícios para plasmar o sol. Nascerá o dia? Temia o dia. A aurora nítida. Teus olhos de sonhos orvalhados. Pele ardente de desertos vários. A voz de Israfel. Corpo iluminado. Letra resgatada dos desertos de Deus. Temia o dia. Enlaçar dedos cálidos. Perfume e chama. Tua pele ¿ Pétala do Oriente. Temia bailar os dedos pelo trigo solar dos teus cabelos. Delinear a boca ardente, o nariz romano, reter a mão na aridez do aro que me separa dos olhos teus. Temia um sol sem sangue e morte, sacrifício, sombra de Montezuma ao meu redor. Já não mais temo. Abraço auroras e navego mar azul, barcas com velas de borboletas e fadas de primavera. Jardim no tombadilho. Anjos ao relento, mastros à lua. Azul, Azul, Azul de éden. Azul mar me leva rumo ao reino das musas e dos poetas livres. Ardente, leio palavras negras na branca tela (Como podem se tornar rosas ardorosas em meus seios?) Luz tua incandescendo a tela. Não vou ao teu encontro, mas te espero, no navio dos sonhos, na ilha dos poetas.







ANGEL BOY



Tuas palavras raras são rosas depositadas em meus braços. Rosas orvalhadas, perfumadas de uma essência de névoa. Brancas, azuis, rubras. Eu as recebo com ternura. Raros dias que vieram espantar cinzas horas... É pouco dizer amor e nele colocar a pele, a orquestra que rege artérias, coração, cérebro. Não te amo em pulsação ou desejos. É além, é tão alto e tão belo. Espírito, luz e sonho... No extracéu, nas nuvens, nas esferas de astros abrasados, no reino da poesia. Rosas orvalhadas, tuas palavras poucas, vertidas de luz. Tua alma é o encanto celeste, música dos querubins. Tudo isto me traz uma nova imagem, o mundo é este azul, este azul tão límpido. Como viver? Como olhar ao redor e não ter mais as orvalhadas rosas?...E na parede as tuas mãos-oferendas, gestos da Itália, e o eco da voz de Israfel, ¿Cantor seráfico ¿ a mais linda das vozes já criadas¿.* Arco-azzurro, símbolos vários: Crescente, acordes árabes, um turbilhão de vida.

É fácil afirmar que Deus existe, posto que existes amado!





*verso de Alan Poe.







CENTAURO ITALIANO



Agora não quero mais ser rastejante. Plantei a roseira e fico a contemplar, rosas azuis inacessíveis. Amo-te e surges em toda parte. Na obra de arte ¿ um centauro com fisionomia de Dom Quixote. Na sinfonia ¿ Bacchiana de Villa-Lobos. No silêncio que tu amas. Nas estrelas orvalhadas de lágrimas. Na lua crescente que te evoca. Fecho-me em conchas. Alagada de amor. Não vou ao teu encontro para dizer Loucamente o que me significas... Calo. Calo. Calo. Continuarei te encontrando no crescente, na arte, na melodia. Quem de tão esplêndido sepultou as estações e se inaugurou Primavera diante do meu olhar.

Pra sempre.







MANDALA DE ROSAS AZUIS



Escrevo como um segredo. Mandala de rosas que te ofereço, antes de sair de cena. Rosas azuis, um vislumbre entre neblina de um reino sonhado. Seria plena estação se os sonhos amalgamados e sutis brilhassem... O abraço pressentido. Retirar - lentamente. Vestes do monge. Os óculos. Pedir licença aos anjos que te envolvem, que te enlaçam em uma ciranda etérea, e penetrar ao teu lado, em silêncio de Dante e Beatriz, O paraíso.





Azul pleno, como só a loucura pode ser plena. Estrelas e Van Gogh. Fico louvando tua beleza como uma princesa arcaica enamorada. Sou a camponesa da Catalunha, a virgem coroada de flores. Assim me vejo nesse milênio de amores vãos. Coroada de desejos de ser Layla, Julieta, Beatriz. Amor imortal. Algum dia lerá estas palavras? Lembrar que rosas azuis nasceram, que teci uma manto de pétalas desmaiadas e te protegi do desencanto e acariciei teus cabelos de trigo maduro. Lembrar que és amado por tantas pessoas e por seres o herdeiro da torre alta do castelo branco, mesmo as sereias se apaixonam por ti.

Lembrar que te amo em cada manhã que meus cílios borboleteiam e me colocam diante da rosa azul e do teu sorriso de estrelas. Lembrar que sou mulher e me faço monja por só amar você.



Leio as correspondências de Clarice Lispector.

Ela diz que a palavra mais bonita em italiano é gióia.

Eu gosto de tenerezza.

Ti voglio bene ¿ jóia de ternura.







BEATRIZ NA TORRE



Céu liquido de maio, cinza dolência outonal abraça a alma despida de primavera. Agora apenas páginas, nelas morrem meu coração, Nelas debruço esta chama de amor e não chegará ao teu olhar esta tarde e o meu silêncio comovido. Quero que ultrapasses a barreira das horas, que infle de sol as velas, barcas soltas. Vinte anos espero ¿ sou Penélope. Vinte anos me resta?

A chuva baila cinza na vidraça que abre a cidade e as cicatrizes de concreto. No mundo não há quem leve, como eu, este solar crepitar na alma.







CANTO DE AMOR DE BEATRIZ



Amanhã o sol trará acordes medievos, teus olhar serpenteado de florestas e fadas, trará o galopar aflito do príncipe ¿ Lancelot ao amanhecer. Amanhã o sol vai soltar velas e trazer Ulisses entre as águas da aurora, te libertar do canto das sereias e dos naufrágios. Ancorarás em mim! Amanhã! A tua chegada não terá cornetas, violinos, harpas - nada! Será um silêncio de respirar de rosas, um silêncio de velar o filho, um silêncio de vôo de condor e neve envolta em luz descendo picos brancos e trazendo o floco doce que será este instante assim ¿ doçura alva pousando em mim. Uma nova Beatriz, Dante estende as mãos, a retira do inferno e revela o céu, um novo céu ¿ extracéu.






Quarta-feira, Maio 04, 2005

 
FARO

Por Silvana Guimarães

faro

"A infância vem da eternidade.

Depois só a morte magnífica

¿ Destruição da mordaça:



E talvez já a tivesses entrevisto

Quando brincavas com o pião

Ou quando desmontaste o besouro".



Murilo Mendes, no poema Janela do Caos







2004



Estudo sobre o olfato recebe Nobel de medicina

da BBC, em Londres



Dois cientistas americanos foram escolhidos para receber o prêmio Nobel de medicina por desvendar os segredos do olfato humano. A forma como o cérebro reconhece e se recorda de milhares de odores diferentes há muito tempo intrigava os cientistas. Richard Axel, professor da Universidade de Columbia, e Linda Buck, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, resolveram o problema.





1999



Vovó parou de respirar perto das cinco da tarde de um dia alaranjado e lindo. No momento certo em que o fedor se tornou mais furioso. (Meu olfato decifrou todas as substâncias de que era feito. Ferrugem, mofo, azinhavre, lodo, barata, ingratidão. O cheiro branco-frio-fatal. Nenhuma revelação, nenhum aprendizado, entanto: meu tato não aprendeu o mistério da vida. Janelas abertas, a visão sufocada pela paisagem quieta da casa ao lado.) Seu coração ainda insistiu por alguns instantes, depois, submeteu-se, inconformado. Isso, vovó. Vai. Até o seu céu possível.





1998



No princípio, o fedor veio brando, minutos antes do derramamento cerebral, do pasmo, da ambulância. Acentuou-se um mês depois, quando a cadeira de rodas entrou pela porta da frente, as enfermeiras atrás.

Primeiro era um enxame rodeando a velha, rainha pálida, encarcerada num corpo flácido e humilhado pela paralisia do lado esquerdo. Vidros inteiros de Madeiras do Oriente eram despejados sobre ela, mantida na antiga pose à custa dos seus melhores vestidos, dignamente arrematada pelo colar de pérolas no pescoço.

Com o tempo foi esparramando-se pelos cantos, entornando-se pela escada, infestando esconderijos, fundos falsos, sótão e porão. Era uma casa com náuseas. Lavada e esfregada com fervor pelos empregados, sem a menor serventia. Nada livrava aquele visgo. Nada abatia a avó e sua inhaca. Aceitou com naturalidade viver a vida que virou castigo: a fedentina anunciava o milagre da salvação.

Quer brincar de saudade, vó?

Vovô viu a vulva. O rato roeu a rola do rei.

Não era assim que você me ensinava a ler.

Agora é.

Isso, vovó, tem razão.

Então me diga, rapidinho: pra que esse nariz tão grande, minha netinha?

Pra melhor te enxergar, vovozinha.





1994



A velha conferiu a quentura do forno, meteu lá dentro a forma com a massa do bolo e olhou para o relógio. Sorriu. Daqui a dez minutos em ponto a menina chegaria correndo, afogueada e com fome, as narinas na frente, seguindo o apelo que foi buscá-la no porão. Então, as duas se sentariam à mesa e comeriam, entre gentilezas e risadas.

Vó, pode cortar um pedaço bem grande pro anjo?

Claro, bem grande, sei como o anjo é guloso.

Hoje ele tá com muita fome, me disse.

Que mais ele disse?

Que os mosquitos têm 47 dentes. Que os camarões têm o coração alojado na cabeça. Que os gatos adoram cheiros de loções ou perfumes e é por isso que cheiram as flores. Que o quack de um pato não produz eco, e ninguém sabe por quê.

Nossa, o anjo é uma enciclopédia animal.

Tem mais. Com 65 semanas de idade, 80% das baratas tropeçam em cima de si mesmas. Os tropeços acontecem a cada dois passos. E elas podem viver 9 dias sem a cabeça.

(A velha estremeceu.)

Lá vem você.

(Vovó odiava baratas.)

A menina ria muito.

Tá bom, vó, vou indo.

De volta para a sua brincadeira preferida. Conversar com um anjo de mármore, do seu tamanho, asas e mãos enormes, olhar vagaroso, guardado no porão. Entre os quadros dos fantasmas e almas penadas mais importantes da família.

Um pedaço pra mim, outro pra você, olha o aviãozinho.

O anjo abria a boca, engolia tudo.

Agora vamos voar.

Ela montava em suas costas e quando estavam bem alto, gritava, com olhos inacreditáveis:

Acho que estamos sobrevoando o Japão.



O dia ameaçava escurecer, a dama-da-noite curiosa invadia a sala da casa e via avó e neta tentando desvendar pequenos segredos.

Vó, onde começa a eternidade?

No domingo à tarde.

A menina ria, a avó delirava.

Assim atravessavam o jantar, brincando de trocar significados.

Vó, se o elefante se chamasse borboleta, ele voaria?

Voaria baixo, menina, bem baixinho.

Quero mais doce.

Comendo tanto doce assim, vai atrapalhar a sua fauna intestinal.

Eu quero, vó.

Você é quem sabe: sua alma, sua palma, sua capela dos olhos, sua pindoba.

Por onde andará Gregório, vovó?

Pelo mundo. Vivo, eu imagino.

E antes do sono a velha contaria histórias. A menina dormiria no seu regaço ¿ Madeiras do Oriente ¿ de onde fugiria para uma floresta feita de fronha e lençol enxaguados com patchuli.



Vovó e seu sorriso de erva-doce, seus rastros flutuando pela casa de pedra, suas flautas mágicas tresandando nos esconderijos, fundos falsos, sótão, porão. Podia ser o pão feito na hora ou os sachês nas gavetas. Ninguém escapava. Todo mundo preso pela ponta do nariz.







1991



Gregório, 34 anos, semianalfabeto, solteiro, solitário, negro, franzino, feio, um filhote de cruz-credo. Era o vigia da casa vazia ao lado da casa da avó. Todo dia, pela manhã, regava as plantas, abria as janelas, sentava-se na varanda e vigiava o dia. De vez em quando, fazia pequenos mandados para os vizinhos. Era de confiança e plantava margaridas no jardim.

Posso colher flores pra você no jardim do Gregório, vó?

Vá, mas sem emendar caminho. E traga-me um buquê bem eloqüente.

Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, que tanto você me olha, Gregório?

Reparando a menina bonita.

Foi quando ela reparou na minhoca enorme escura que ele tentava enfiar no buraco da calça, nunca tinha visto uma igual, encantou-se.

Deixa eu ver, Gregório.

O moço entusiasmou-se, a mão ganhou ligeireza, a minhoca empinou-se, dobrou de largura, dura.

Assim, Gregório, mexe mais. Mais.

Sai da frente, que isso espirra longe.

Ela gargalhava e batia palmas.

Gregório ofendeu-se.

Tá me gozando, é?

Tudo que é sério é amargo, aprendi com vovó.

Não entendo o que a menina diz.

(A minhoca pendurada, cabisbaixa.)

Se eu tivesse uma coisa assim entre as pernas, ia viver achando graça dela.

Um cheiro morno-aceso-sem-vergonha ¿ mistura de camembert com água sanitária ¿ violou meu olfato, esgarçou minha inocência. Nenhuma revelação, nenhum aprendizado, entanto.







No ano 2066, a menina vai fazer 80 anos. Vai ter festa. Filhos, netos, genros, noras, o resto da família e os amigos, ao seu redor. Vai apagar as velas do bolo e respirar contente os fogos de artifício que explodem no seu jardim. Sou feliz, vai decidir, enquanto olha para o anjo de mármore que enfeita a sala de jantar. Depois dos últimos abraços e beijos, vai subir as escadas em direção ao quarto. No penúltimo degrau, vai sentir um cheiro ruim, familiar. Está começando a minha hora, vai pensar. Vó, onde começa a eternidade? No domingo à tarde, ela vai rir. Gregório, lá vou eu. Nunca mais o vi, nem de perto, nem de longe, nem nos homens com quem me deitei. Como era mesmo o seu rosto? As suas mãos? De que espécie eram os seus sonhos? A sua alma, de que cor? Não se lembra. Mas confesso que, volta e meia, entra ano sai ano, ainda me pego inventando o estrago que aquela minhoca preta faria na minha buceta loura.












Sexta-feira, Abril 29, 2005

 
Gloria Gozo

Marta Rolim

Aqui dou fé de meu testemunho e digo que ele é de palavra fiel e verdadeira. Podem confiar, não sou mulher de contar lorota, até já fui, mas hoje não sou mais, graças a Ela! Pra mim Ela era um anjo, desses que descem à terra pra testar as índoles, pra deixar bem claro pro Senhor quem é quem nessa vida. Pois sou devota de Glória Gozo, sou devota com muito orgulho! Acendo vela, dou beijinho em santinho, faço promessa e sou atendida, mas a bênção maior que a Glória me concedeu foi em vida, amém!

Tudo começou quando uma cigana muito bonita chegou a nossa cidadezinha de Patiqua e armou uma tenda de pano azul celeste, estampada com brilhos e estrelas, bem no meio da praça central. Ela, uma moça morena, não muito alta, de cabelos negros cacheados, chamava a atenção pela graça e beleza. Vestia-se com vestido vermelho, usando suas muitas pulseiras e pingentes de lua e sol, sorriso alegre, olhos brilhantes, pés descalços. Sempre achei encantadora a forma como Ela chamava os passantes. Jamais se aproximava, quanto mais puxava a roupa de alguém, não, nada disso. Simplesmente sorria, um sorriso amoroso, com uma aura que já denunciava sua natureza divina, e fazia um amplo e suave gesto, apontando para o interior da tenda, curvando o corpo em deferência, como a gente vê os artistas fazerem no final do espetáculo, em agradecimento as palmas, pois assim Ela fazia. No início ninguém ousava se aproximar. Só se ouvia as línguas maledicentes desse nosso povo, falando como víboras, só destilando veneno. Naquela época já diziam, antes mesmo de conhecê-La, que era mulher do mal, prostituta, ladra,mentirosa, seqüestradora de criancinhas e por esse rio de injúria e estupidez iam afogando qualquer bondade em seus corações.

Infelizmente padre Anito, embora hoje convertido e arrependido, também contribuiu com essa insensatez, orientando as famílias do rebanho a manterem distância da cigana morena, como a chamava. As mães puxavam seus filhos para longe d¿Ela, mas as criancinhas insistiam em corresponder ao sorriso luminoso de Glória, sem nenhum medo, atraídas pela luz divina que os adultos não enxergam mais, pelo menos não com a mesma facilidade. Então, finalmente, uma mulher atormentada e sofrida viu em Glória esperança e cruzou o gramado até a tenda azul-estrelada, afrontando a todos, ao padre e aos maldosos.

A mulher, como muitos sabem, era Sandra Maria, a esposa do Coronel Figueira. Sandra Maria foi a primeira a ter a honra de adentrar a tenda e deparou-se com uma sala de tecido aconchegante, um mimoso baú de madeira e meia dúzia de lustrosas almofadas de cetim, nada mais. Glória e Sandra acomodaram-se sobre as almofadas, e muito timidamente, Sandra Maria pediu que Glória lesse o seu futuro. "Que futuro você quer ter?" - essa foi a resposta de Glória e prosseguiram conversando o resto da tarde, até quando a noite principiou a cair. Foi o primeiro milagre. Sandra Maria emergiu da tenda outra mulher. Não que tivesse sucedido uma reviravolta mágica em seu corpo ou uma ruptura abrupta em sua alma, mas havia, isso sim, ocorrido um milagre da natureza em seu ser. Como quando se tem uma semente guardada por anos numa caixa selada e, de repente, se abre a caixa e se lança a semente no solo fértil e ela brota e nasce e, não tardando, dá saborosos frutos. Pois foi um milagre mais ou menos dessa ordem que sucedeu a Sandra Maria, um milagre de renascimento.

Naquele mesmo dia, Sandra chegou em casa e foi direto trancar-se em seu quarto. Estendeu-se na cama e pôs-se a explorar, delicada e meigamente, a flor celeste entre suas pernas. Pela primeira vez na vida gozou, a princípio
sozinha, chorando de alegria, em puro êxtase. Como a alegria fosse muita, e mal se continha de um desfalecimento orgástico, chamou coronel Figueira e contou-lhe a boa nova, voz embargada, dizendo apenas que havia sentido um novo mundo, e lhe dando beijinhos lascivos e carinhosos, foi conduzindo o marido para a cama, onde gozou novamente, não sem gemidos e movimentos derretidos de prazer.

O coronel, muito conservador, que sempre fizera tudo do mesmo jeito, assustou-se muitíssimo com a nova mulher, cheia de exuberância, que agora dormia profundamente, entregue e cansada, sobre seu peito. Ao mesmo tempo
maravilhado e horrorizado, coronel Figueira imaginou toda sorte de justificativa para tal mudança de Sandra Maria, sua esposa, sendo que a justificativa que lhe parecia mais convincente era a de que se fizera corno, e que vinha sendo traído, substituído por homem mais bem dotado e capaz, a ponto de a mulher ter aprendido toda sorte de delícias conjugais. O pobre coitado passou a noite em claro, angustiado, dividido entre matar a mulher ou amá-la mais uma vez. Acabou acordando Sandra Maria as cinco da manhã, para sentir suas curvas femininas, que agora estavam mais vivas e quentes do que nunca. Só levantaram da cama quando o sol já ia alto.

Então, Sandra Maria começou a pregação. Falou a todos sobre Glória, a mulher da tenda das estrelas, a mulher que lhe mostrara uma luz, e de como gozara lânguida e generosamente na noite bem dormida. E de boca em boca a cigana morena começou a ser chamada pelo povo de Glória Gozo - a padroeira das frígidas - a medida que mais e mais mulheres começavam a procurá-la e não voltavam à tenda sem uma palavra de graças e uma aleluia. Em pouco tempo era preciso entrar numa fila para falar com Glória e espontaneamente surgiam voluntários que ajudavam a manter um mínimo de ordem na praça pública. E não somente mulheres a procuravam, mas alguns homens também e um, dentre estes, foi padre Anito, que veio ver que obra era aquela que Glória Gozo vinha fazendo. Padre Anito saiu da tenda erguendo as mãos para os céus e dizendo repetidas vezes "Bendita sois, Glória Gozo, dentre as mulheres!"; e enquanto ia repetindo, ia abençoando a multidão ali presente, que eufórica diante da evidente aprovação dele, gritava felizes e emocionados aleluias. As más línguas dizem que ele deixou a batina depois de receber a luz de Glória, porque também ele teria desfrutado a bênção do gozo. Mas essa não é bem a verdade, como ainda terei a oportunidade de lhes contar.

O fato é que nem todo mundo gostava de Glória, ao contrário, ao passo que muitos a amavam, tantos outros nutriam ódio e rancor por Ela. Mesmo o coronel Figueira, apesar do encantamento que sentira por sua esposa, nãosuportou vê-la tão feliz. Disse que ela estava muito autoconfiante e dona de si, e isso não era boa coisa, pois era o homem que devia chefiar a casa e conduzir as coisas do jeito que gostava e aprovava. Queria a esposa obediente aos seus rotineiros desejos. Acabaram separando-se, não porque Sandra quisesse a separação, mas porque o Coronel não suportou a sua felicidade.

Foi mais ou menos nessa época, logo após o coronel Figueira e Sandra Maria romperem o casório, que iniciaram os levantes contra a fé em Glória: os maridos começaram a trancar as esposas em casa, salvo uns poucos, que
compartilhavam com elas ainda maior plenitude; padre Anito desapareceu, não deixou a batina, mas foi transferido de paróquia, da noite para o dia, sem sequer poder despedir-se do rebanho; um grupo de encapuzados queimou a tenda azul-estrelada, mas no outro dia a tenda estava no mesmo lugar, linda como o céu. Glória tinha mais de um tecido guardado no baú que não queimou. Assim a perseguição contra os crentes foi crescendo e ficando mais cruel e acirrada. Mas Glória permanecia serena e intocada, apenas dizendo que quando chegasse a hora partiria.

Foi encontrada morta numa manhã, dormindo feito anjo. Um furo no peito, nem sangue havia. Nós, os fiéis, a abraçamos e enrolamos no tecido de estrelas; derramamos óleo perfumado em seus pés, pois a dor era tanta que queríamos que Ela sentisse todo o nosso amor, com o Santo óleo que ela nos fornecia. Agora a dor do luto já não é a mesma porque sabemos que Glória Gozo vive e que sua obra continua. Criamos o seu santuário Sagrado em Patiqua e muitos outros foram erguidos em sua homenagem por todo lugar.

Escrevo esse testemunho para agradecer a bênção do gozo, que recebi com muita alegria depois de ter aprendido alguns de seus ensinamentos. Publico esse testemunho em pagamento de promessa e dou graças a Glória Gozo pela libertação que me proporcionou. Amém! Convido você a conhecer também os caminhos de GG. Se desejar se comunicar com os seguidores de Glória Gozo, escreva para gloriagozo@anjosdeprata.com.br - Patiqua.




Quarta-feira, Abril 06, 2005

 
Conto para análise #188]
[Autor: Rubens da Cunha]
[Título: A Leitura]
[Gênero: Suspense Psicológico]
[Número de Palavras: 2.073]

Escrito na tua mão: teu destino é curto. Breve será o dia de tua morte. Olho para a cigana em busca de um sorriso desmentindo: estou brincado, tua vida será feliz. Não encontro nada. A expressão trágica de uma mulher que pode ler o futuro escrito nas mãos. A expressão tirânica de uma mulher que sabe seu próprio futuro e não tem medo. Saio correndo. Dentro da cabeça martelam-me as palavras: "breve será o dia de tua morte". Como pode minha mão ser livro para o destino? Por que o destino escreveu tão pouco em mim? Sou feliz. Tenho filhos. Jovem ainda, trinta e dois anos. O amor compareceu na minha vida muito cedo e completo. Tenho casa, amigos, carro, emprego bom, família: os artefatos para a felicidade. Por que agora me descubro morto em breve? Sei que não deveria acreditar em uma mulher maltrapilha que me parou na rua, pegou minhas mãos e sem hesitar arremessou-me num calvário. Olho os hieróglifos que me escreveram nas mãos. Nada vejo, sulcos, como se fossem cicatrizes das vidas que dizem eu tive. Chego em casa, os filhos abraçam-me. Beija-me a esposa, contam-me o dia. Escuto pouco. Escuto o martelo: breve será o dia de tua morte. A esposa estranha, pergunta o motivo da distância. Disfarço-me em proximidades. Olho para as mãos dos filhos. Estão lá as linhas, o que está escrito nelas? o que o destino cometeu para estas crianças? Saio um pouco de casa. Vou andar por aí. Não tenho sono. São palavras para satisfazer a mulher. Tenho que achar a cigana, ela vai reler minhas palmas, vai dizer que errou a leitura, desacostumada com o mistério, enganou-se. Ela vai ler vida longa em mim. Vou procurar a cigana. Não tenho coragem para a morte. Na verdade nunca penso nisso. Próximos de mim já morreram: o pai, os avós, alguns conhecidos. Sempre olhei para eles com piedade. Cortados. Súbito não respiram, recebem terra por sobre o corpo e desaparecem. Não tenho coragem para enfrentar a arma que o estar vivo nos aponta. O irremediável que puxará o gatilho e tombaremos árvore imprecisa. Saber é o que magoa. Tenho que achar a cigana, desfazer o dito, retornar suas palavras à garganta. Tenho que viver sem saber que logo morro.

Continuo olhando para as mãos. Analfabeto. A cigana deve ainda estar na cidade. Ciganos são errantes, não posso perder tempo, tenho que achar a mulher para que seja desfeito o presságio. Volto tarde, a esposa na sala manifesta preocupação: cidade violenta, andar por aí é perigoso, o que aconteceu hoje? Digo evasivas, trabalho muito. Insônia. Não fui longe. Vamos dormir. Amo a esposa para silencia-la. Mecânico. Um pouco de culpa atravessa meus movimentos. Quase não posso. Termino. O beijo do foi bom. Nas mãos as linhas escritas anunciando minha brevidade. Dorme a mulher. Dormem os filhos. Em mim gritam os escritos lidos pela cigana. Falto ao trabalho. Doente, não posso ir, amanhã estou melhor. Entendem, sempre fui exemplar. Passo o dia atrás da cigana, cada canto, cada miséria da cidade foi visitada por mim, não viram ciganos por estes dias: enganado o senhor, eles sempre acampam aqui, faz mais de ano que não aparecem. Tem certeza? Sou revestido de toda a certeza que há. Ontem uma mulher me parou na rua, pegou minha mão e disse: escrito na tua mão: teu destino é curto. Breve será o dia de tua morte. Como pôde sumir assim? passo o fim do dia no lugar onde me soube morto. Observo cada pedestre. Nenhum é a cigana. Volto para casa. Finjo melhoras. Tento me lembrar do que eu era antes de ontem. Do que dizia aos filhos, do que a esposa gostava de ouvir. Rememoro os gestos, o sentar-se na poltrona, o interesse no dia dos pequenos, suas tarefas, suas travessuras, o lugar à mesa, o jantar, algum olhar malicioso para a mulher. Faço tudo dentro do estabelecido. Na cabeça os martelos continuam ressoando. Nas palmas, as linhas continuam escritas. Falto ao trabalho novamente. Preocupam-se. Gripe forte. Febre. Vou a um médico hoje. Dizem que eu me cuide. Quase a pergunta foge da boca: como? Se uma mulher previu minha morte? e não tenho outro fazer que não caça-la. Quase que digo, só retorno ao trabalho depois que a cigana desfizer o dito. Antes não. Minto é claro, se estiver melhor amanhã vou. Compreendem, sempre fui exemplar. Minto para esposa também: hoje nem me procure, estarei em reunião o dia todo. Durante a manhã percorro o centro da cidade, vejo todo tipo de gente. Nas mãos de todos: Linhas semelhantes as que tenho. Mas o que revelam estas palmas? Por certo, não o mesmo infortúnio que carrego. Não digo que não há vida mais trágica que a minha. Sofrem mais do que eu muito desses passantes. Mas por acaso sabem o que lhes aguarda? Por que acredito tanto naquela mulher? Por que ela impingiu em mim este fracasso da vida curta? Finda a segunda tarde depois que me soube morto. Entro num bar. Café. Não, para comer não quero nada. O atendente me observa como se me conhecesse: O senhor teve aqui ontem procurando uma cigana, não é mesmo? Sim. Antes que a boca se apresente os olhos perguntam: você a viu? Anda por aqui uma cigana que lê as mãos? Seria aquela ali parada na porta? Viro-me para trás. Estática, submersa em sabedorias a mulher me olha entre a piedade e a soberba. Procura-me? O que fizeste comigo: desfaça. Nada daquilo que disseste está escrito aqui. Vamos, desfaça o presságio. Diga-me que serei longo na vida, que terei netos, bisnetos, que ultrapassarei a barreira da idade humana, diga-me que minha vida não tem fim. Que é isto que escreveram nestas linhas que carrego. Minto se é o que queres, tua vida será longa, envolta em felicidade, a morte não atingirá teus dias, muito menos tuas noites, dormirás tranqüilo e acordarás disposto ao trabalho por muitos e muitos anos. Pronto. Menti, estás contente? Fala-me a verdade. Teu destino é curto. Breve será o dia de tua morte. É isto que conténs nas linhas. Não há escapatória. Breve, muito breve não viverás mais. Como sabes? Como podes me sentenciar desta forma? Te fiz algo? Machuquei alguns dos teus? Como me escolhes ao acaso e condena-me à morte? Meu caminho é cruzado por aqueles que foram escritos pelo destino com as letras originais da morte. Olha este rebanho que atravessa a cidade, sabes quantos iguais a ti? Um ou dois. Todo o resto cópia, rascunho, esboço do texto real que tu carregas. O destino escreveu em ti o texto final. Sem erros ou borrões. Em ti o livro definitivo. E estou aqui para ler-te. Posso mentir, enganar tua consciência, incorporar nos teus dias a esperança de vida longa, no entanto o que contemplas nas mãos, quanta perfeição. Porque eu nunca soube disto? Sempre indiquei à minha vida o metódico, o correto, o que não se insinua entre desvios e escuridões. Sou homem claro, estruturado para a felicidade. Não há em mim ranços de morto. Por que então fui escolhido? Não sei, sei que breve será o dia de tua morte, é o que carregas. Saio em desespero, ainda ouço o grito: Pode correr, nada afetará a verdade, breve será o dia de tua morte. Por que caí nesta teia? movido por uma curiosidade estúpida, estendi a mão à cigana. O que era uma consulta de brincadeira se tornou este amontoado de absurdos. Ecoam os martelos, agora em dobro: duas vezes vi a cigana, duas vezes ela previu meu destino curto. Volto caminhando para casa,na cabeça os martelos, nem quase ouço a mulher: Por que veio a pé? onde está o carro, te roubaram? Roubaram minha ignorância, foi o quase grito que dei. Digo a esposa nova mentira, não se preocupe o carro está guardado na empresa, vim de carona e um pouco andando, precisava disto. Vem jantar, está tarde, as crianças já dormem. Invisto-me de esforço e engulo a comida, o resto é perfurado num silêncio de velório, meu velório. Agora já assalta-me a idéia de como vou morrer em breve. Ataque do coração? atropelado? Serei vítima de um assassino? Desfaleço na simplicidade do sono. Durmo e não mais acordo? Não durmo. Caminho pelos corredores da casa, todos se distanciam ressonando, a mulher, os filhos. No quarto das crianças: despeço-me. Os filhos estão aqui seguros, envoltos em felicidade familiar e eu carregando nas mãos os escritos do destino. Traí meus filhos. Não deveriam ter nascido, aprendido em mim um pai, se em breve será o dia de minha morte. O que farão estas crianças? são rascunhos como disse a cigana, ou deixei para os filhos o legado de morrer em breve? Choro, escondo os soluços para que não ouçam. Sou todo medo. O que vou fazer diante desta peste que me dizima a esperança? a mulher põe as mãos no meu ombro: O que te atingiu nestes dias? Nada, talvez cansaço, precisamos de férias, vai dormir, amanhã o dia é cheio. Afasto de mim esta que me ama. O quanto deste amor resistirá quando souber que é véspera da sua viuvez? Por que acredito numa cigana? em qualquer outro a premonição provocaria risos, chacotas de despreocupação. A razão me pede que esqueça, desconsidere o presságio, mas lá no fundo eu sei que morro em breve. Eu sei. Trinta e dois anos. É o que tenho, filhos, esposa, carro, casa: é o que tenho. Eu sei que não vou abandonar o que construí, o que sustenta minha vida sem sobressaltos. O destino fez de minhas mãos um livro. É o que tenho. Não vou sucumbir a isso. Precisam de mim. A mulher, os filhos, os muitos amigos, gostam de mim. Não vou morrer. Vou reescrever estas linhas, desdizer estes traços, livrar de mim este prognóstico macabro. Tenho trinta e dois anos, mulher, filhos, felicidade, não sou homem apto a carregar este livro. Não quero aprender a ler o que me escreveram os demônios, deus, ou outras invisibilidades mórbidas, travestidas em destino. Na pia do banheiro esfrego o quanto posso, até ter as palmas lisas. Brota o sangue e as linhas estão lá, parecem agora rios minúsculos desaguando em sangue os escritos do destino. Saio pela rua, esfregar as palmas até arrancar a pele, até que seja somente a carne, não adianta, vem de dentro as letras, estão enraizadas aos ossos das mãos. Arrancar a pele é paliar o inevitável: breve será o dia da minha morte. O que estou dizendo? Assumindo o que a boca da cigana me maldisse? Não, não chegará o dia em que aceitarei morrer jovem. Tenho filhos. Trinta e dois anos. Mulher. Família. Sou Feliz, está tudo lá dependendo do meu trabalho, do meu amor, da felicidade que lhes dou. Como agora encho o pensamento de aceitações? Nunca, não está em mim o perdedor. Manhã do terceiro dia, ainda estou vivo, ainda tenho tempo para desescrever o destino. Falto ao trabalho, gripe pior, atingiu meu filho, peço mais um dia. Dizem: tudo bem. Não se preocupe, seguramos as pontas, saúde é importante. Sempre fui exemplar. Não será agora na necessidade que me faltarão. Tenho a solução, vou apagar em mim os escritos do destino. Viverei muito, muitos anos e não morrerei breve. A cigana, crivada de enganos virá ver o quanto eu posso enganar o destino. Todos se admirarão de minha coragem, do meu amor pelos filhos, pela esposa, pela vida amiga de perfeição e felicidade que eu levo. Tenho trinta e dois anos. Muito futuro, muito a dar a todos, sou feliz, não sou compatível com os escritos do destino. Volto para casa meio-dia, comprei o necessário para erradicar de mim o que carrego. A casa está vazia, crianças na escola, mulher no trabalho, poderiam se assustar se vissem, não contei nada para eles, não sabem que morrerei em breve se não apagar em mim o que me escreveram. Tudo vazio, a garagem, a casa, a vida, o futuro, tudo vazio para que eu possa preencher de felicidade, depois que eu apagar o que o destino escreveu em mim. Na cabeça os martelos ainda soam: breve será o dia de tua morte. Ligo a serra comprada em uma loja de materiais para açougueiros. Estico os braços em direção a lâmina. Na altura dos cotovelos. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Mortas as linhas que me diziam morto. Nunca mais soarão os martelos. Nunca mais cigana alguma me lerá as mãos.







Terça-feira, Abril 05, 2005

 
Imagens Desabrigadas

Luci Collin

às quatro. encontrar-me-ei com ela às quatro, conforme me disse. conforme eu disse a mim mesmo. conforme mentiu. às oito estarei ainda lá esperando? e qual relógio poderá afirmar: são quatro? meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente mas esqueço de dar corda, me esqueço da seqüência das horas. quantos minutos são necessários para que cada coisa se faça? na verdade um dos ponteiros caiu há muito, muito mesmo. ficou solto ali dentro daquele visor encardido. sim, é um relógio antigo e guarda o tempo passado. todas as horas são um punhado de grãos indistinguíveis. mas sei que quando o coronel sai e bate a porta daquele jeito são três em ponto. encontrar-me-ei com ela às quatro.

conforme disse, o lugar deve ser este. conforme combinamos. mas advertiu que mentia. mas não acreditei que mentia. mas não acreditei que fosse capaz de mentir. por isso vim. por isso estou aqui. e são talvez já oito horas. não neste meu relógio indolente. nos outros relógios do mundo são oito. serão nove, quem sabe? neste relógio que observo, tendo há muito esquecido qual dos ponteiros se perdeu, o tempo é sempre um caminho impossível. conforme menti a mim mesmo ela estaria aqui, conforme eu quis acreditar que jamais mentiria. são oito. punhado de intraduzíveis. não, ela não veio. e já que sempre me esqueço a sequência das horas, não importa se está atrasada ¿ não significa que não vem. num relógio como o meu, de ouro e com aquela corrente, quatro pode ser imediatamente depois de oito. e isso quer dizer que encontrar-me-ei com ela daqui a pouco.

na verdade ela jamais disse que estaria aqui na hora combinada. eu é que inventei um horário. ela nem tem relógio! nem relógio ela tem! como poderia combinar um encontro comigo ou com qualquer outro alguém!? dei a ela um pequenino relógio com uma delicada pulseira. ela recusou. anos atrás. jamais quis aceitar presentes. e eu sempre a insistir, reconheço! lembro-me que tive que devolver à loja aquela gaiola com o casal de canários. anos atrás. punhado de impermanências. não quis o relógio e não quis os canários e nem o chapéu lilás que ofereci e nem as luvas e nem o pequeno lenço de seda e nem o livro de sonetos e nem o terço de madrepérolas e nem aquele abajur estampado com motivos orientais e nem o jarro de porcelana pintado à mão e nem a caixinha adamascada e nem o exótico vidro de perfume e nem a estatueta de jade e nem os chás importados e nem o colar de coral. e não tendo aceito o relógio jamais poderia estar aqui na hora combinada. se chegasse, eu poderia suspeitar que um dia aceitou um relógio, delicado ou não, de algum estranho. mas não de mim.

às cinco não aguentei e descasquei uma das laranjas que iria oferecer. às seis aquele gato esquisito sentou-se aqui ao meu lado. às sete três moças passaram apressadas para apanhar o bonde e eu soltei as flores que segurava. às oito uma folha de jornal perdida foi sendo arrastada pelo vento e eu acompanhei seus movimentos sem sentido. às nove minha cabeça começou a doer e os meus pés começaram a latejar. às dez uma sirene soou e não consegui distinguir de onde vinha aquele som. às onze garrafas foram quebradas no beco. à meia-noite uma criança pequena começou um choro monótono e depois o pai da criança começou a berrar. à uma hora eu olhei para o céu. às duas não aguentei e descasquei uma das flores que iria oferecer. às três aquela folha de jornal sentou-se aqui ao meu lado. às oito cinco moças saídas de um baile passaram apressadas em direção ao vento. às nove eu soltei as laranjas que segurava e acompanhei seus movimentos sem sentido. às dez um gato começou seu choro monótono e depois minha cabeça começou a latejar. às onze não consegui distinguir aquele som que veio do beco e olhei para os meus pés. ao meio-dia o pai da criança passou apressado para apanhar as garrafas. à uma o céu monótono será quebrado mas o som será confundido com aquele da sirene. às duas meus pés pararão de berrar. às duas e trinta a criança terá virado um homem esquisito que passa em direção à folha de jornal. às três em ponto o coronel sai, meus pés, então, conseguirão partir. às quatro, conforme me disse, mentirá.

outra vez.

conforme me disse.

conforme eu disse a mim mesmo. meu relógio é de ouro e tem até aquela corrente. esqueço de dar corda. esqueço a sequência das horas. um dos ponteiros caiu. sai e bate a porta daquele jeito. o lugar deve ser esse. nos outros relógios do mundo. encontrar-me-ei.

um relógio afirmou:

às quatro.





Quinta-feira, Março 17, 2005

 



Segunda-feira, Março 07, 2005

 
Memorial de Álvaro Gardel

Márcia Denser

"Em memória de meu pai por quem não pude chorar"

Foi enterrado a 28 de maio com aquele casaco que eu lhe dera em 87 que um dos amantes havia me dado ou roubado ou não sei, era um casaco sal e pimenta vagamente inglês, imagine, ele, logo o velho, logo Álvaro que só se vestia no Minelli desde que eu tinha 6 anos e minha irmã 4, mas de todo modo foi enterrado com um casaco de bom corte, sal e pimenta, meio inglês, que roubei ou ganhei ou não sei que amante remoto eu poderia ter arranjado nos confins do naufrágio de 87 (aqui refiro-me ao meu drama pessoal que agora não vem ao caso) porque o dele (o do velho, o de Álvaro) o arrastou muito antes, vinte anos antes, mais ou menos no início de 70 quando eu o enterrei, nós (eu e minha irmã) o enterramos pela primeira vez, o velho louco, desabiondo y suicida, que aprendera filosofia, dados, timba e a poesia cruel de não pensar mais em si (como naquele tango de Mariano Mores). Por isso aceitou e usou o tal casaco dois números maior, dado ou roubado de alguém que já não precisaria de nenhum ( um amante talvez morto ou preso ou exilado) sequer de mim, que já começava a naufragar naquele ano de 87 e meu pai ¿ que só se vestia no Minelli desde 1947 ¿ o aceitou com irônica resignação, o velho pilantra antecipadamente morto, como se soubesse ou adivinhasse ou antecipasse que o enterrariam nele pois que doravante repousa precariamente em paz (mas num excelente casaco de tweed inglês sal e pimenta) no columbário número 80 do cemitério de Vila Mariana, ala B.

(Em 26.06)

Há um mês mandei inscrever a lápide com um nome e duas datas, premeditando futuramente o painel de azulejos ou ladrilhos, sem contar a inscrição que desta vez sim, mas não, posto ter sido informada que em três anos o município recolheria suas cinzas à gaveta de modo que seria bobagem gastar dinheiro por tão pouco, o administrador enxugava a testa coberto de razões e fuligem, os grossos óculos de míope, donde a não menos premeditada quanto tola inscrição In Memorian de Álvaro Gardel, pai eternamente amado, suas filhas Júlia e Amanda - 29.05.24 - 27.05.97 igualmente caput - três nomes e duas datas - sequer esta derradeira vaidade lhe foi concedida, velho (ou negada à mim? ) mas tolamente eu insisto: então não restará nada e terá sido só, terá sido tudo: desejo e pó ?
Porque eu não sabia ser tão tarde, tão inútil.
Veja bem, não estou tentando penitenciar-me até porque para mim não há perdão nem castigo nem penitência nem remorso ( não há pecado para minha estúpida inocência) apenas a obstinada pergunta sem resposta sobre o desígnio da vida de um homem resumido a duas datas e um nome, enterrado com um casaco de outrem (ele que só...) pai eternamente amado, desejo e pó, e então o silêncio das palavras não ditas, dos gestos desfeitos - enfrentar este vazio sem perguntas nem respostas que é meu pai definitivamente morto na antevéspera de completar 73 anos.



(Em 26.05)

"Sua chegada é repentina, inflama-se, extingue-se, é jogado fora"
( I Ching - hexagrama 30 - Li - A Chama, nove na quarta posição)

Desta vez meu pai está morrendo.
Eu deveria ou poderia ou não me restaria outra alternativa além de pegar um ônibus para ir vê-lo pela última vez no hospital quando sua segunda mulher ligou-me: seu pai está morrendo (morrendo entre estranhos, como tem vivido os últimos quinze anos, se fazendo de cego, surdo e burro). O hospital fica no quilômetro 27,5 da estrada de Itapecerica da Serra, com nome de santa que duvido existir alguma chamada Mônica, todavia ocorre que há oito anos - desde que vendi o apartamento, o automóvel, os telefones, os móveis de família, liquidei minha vida (ou o que materialmente restava dela) ¿ e os móveis eram tudo o que restava ¿ desde então experimento, digamos, o lado coletivo e anônimo da vida, o que significa andar de ônibus, metrô e assemelhados, sem contar o cotidiano mais pedestre, indo e vindo de lugares onde ninguém me espera, não sou benvinda ( não sou mais) pois há muito não conto, não vivo, não valho o suficiente a ponto de alguém se dispor a perder tempo, gastar gasolina, em atenção ou amor ou amizade ou compaixão ou piedade comigo ¿ eu, sombra de mim.
De forma que na condição de filha, a mais velha, a primogênita, teria que pegar um ônibus para Itapecerica da Serra, a norma exigia, os bons costumes, e ir ver o pai ainda uma vez, possivelmente a derradeira.
Mas seria bobagem.
Porque eu sei (eu e minha irmã sabemos) que é bobagem, que este cara está morrendo há 28 anos, que começou a morrer quando eu o internei pela primeira vez no sanatório para a cura de desintoxicação - ele, o alcoólatra, o desgarrado, o infeliz, o despojado dos bens desse mundo, até mesmo do amor e orgulho, o vaidoso dipsomaníaco.
Foi em 71.
Recordo-o vagando no escuro corredor do escritório onde eu trabalhava ( meu primeiro emprego com carteira assinada e direito ao INPS).Vinha vacilante, macerado em álcool, subira sozinho os nove andares (enquanto os irmãos esperavam-no lá embaixo sentados no taxi com taxímetro ligado, que aliás ele pagaria) para pegar a guia de internação e eu lhe entreguei rapidamente o envelope, temendo ser vista ou que o vissem ou que nos vissem, mas ele desapareceu, um meio sorriso torto, sugado pelo elevador, reconduzido de volta à rua onde o aguardavam no taxi para levá-lo e interná-lo e trancá-lo e jogar a chave fora.
Porque eu apenas era jovem ( ah, a juventude, essa falha impossível de se evitar em dado período da vida) naturalmente cruel e impiedosa como todos os jovens que acreditam com absoluta certeza na vitória e na esperança, no poder e na glória eternos e para muito breve.
Então eu não tinha tempo para você, velho, para parar e olhar para você, voltar-me e te ver despojado dos bens desse mundo - alcoólatra que naufragara, silencioso e hostil, inconquistável rendido indiferente, sem implorar ( porque se ignorava despojado da sua fortuna pessoal, aquele capital inalienável de sanidade e lucidez ) ¿ eu é que estava suja aqui dentro, porque a tua derrota, a tua rendição doía em mim, velho, então melhor te excluir do pensamento e do coração, fingir que você não existia, porque eu não ia me voltar para te olhar (estacar a meio caminho da vitória eminente) parar e olhar para você só para me sentir um lixo, por isso te internava e internava obsessivamente em sanatórios onde te deixava, te trancava e jogava a chave fora.
Mas não vou pegar ônibus nenhum.
Aos 43 anos não se pega ônibus nenhum ¿ além de velha, derrotada - de certa forma, sim, derrotada ¿ precisamente por isso não vou pegar ônibus nenhum para te ver morrer, meu chapa, não definitivamente.
Porque nós merecíamos mais do que isto, por exemplo alguém que nos acompanhasse, amigo e silencioso, nos pagasse um café à beira da estrada, a meio caminho do hospital da tal santa que não existe, oferecesse um saquinho de balas, nos estendesse o lenço, voltando o rosto para não nos ver chorar e ¿ sobretudo ¿ porque era preciso que você me visse derradeiramente acompanhada, não mais a filha da sua orfandade, e então partisse consolado pelo fato de não me deixar tão só e já tão distante da breve vitória, sabendo-me amparada por alguém a conduzir-me sem contudo me carregar ¿ qual troféu, qual fardo, tanto faz, depende do ponto de vista ¿ posto que a mim já basta minha dor.
Solicito apenas tempo, lugar e o direito de chorar derradeiramente por meu pai cuja alma se apagou há 28 anos e hoje definitivamente de corpo e alma, duas vezes morto e acabou-se.
Terá sua morte sobrevida ? Terá a alma sua palma? Sim ou não? Terá o espírito gás suficiente ou se extinguirá num sopro, rendido ao demônio do abismo? ¿ como se nunca tivesse existido, porra.
Decidi-me por não ( aos 43 anos não se pega ônibus nenhum e muito menos na ditas circunstâncias, etc. ) ir, velho, acho que em nome duma derradeira dignidade, ao menos hoje, ao menos desta vez, a última, porque será para sempre.
Aliás, ambos merecemos esta última dignidade ¿ o transitus da vida à morte ¿ de não estarmos sós, os passes de ônibus amassados entre os dedos, como se fosse tudo o que daqui levaríamos, a passagem para o outro lado ¿ o óbolo de Caronte?
Porque não se joga fora o coração metendo-o num ônibus para dizer adeus apenas com um passe amarrotado no bolso, o símbolo desta sub-vida, desta sub-paisagem de postes e fios, deste sub-horizonte de cães onde transito (que é uma das tantas formas de estar morta) daí não haver muita diferença entre você e eu, meu chapa, porque também fui despojada, também me fodi ¿ nem que estivesse na sua cola, velho ¿ puxei você, puxou ao pai, eis o óbolo (o passe de retorno ao mundo dos mortos vivos).
Nada, sequer o bolo de mel, a coroa de flores, unicamente a moeda de Caronte a ser paga ao barqueiro pra te atravessar para o outro lado, entrando assim na morte com as mãos vazias.
Ficarei te devendo também isto.
E devo-te ainda mais porque devo à mim, não sem razão de tal forma sou cobrada, conquanto toda humilhação seja uma penitência, todo fracasso, uma misteriosa vitória, todo acaso, um encontro marcado, toda morte, um suicídio, não vejo consolo algum nesta sórdida teleologia, pois existe algo em mim que não se compraz com palavras, não trafica com sonhos, não negocia e também não adiantaria, porque tem um limite até onde se pode enganar-se a si mesma ( sem contar o descarado plágio avant la lettre borgiano).

Por enquanto, devo a Deus e todo mundo: que outra forma de explicar o fato de reiteradamente me voltarem a costas deixando-me há anos e à margem com dois passes de ônibus de ida e volta para o Limbo ¿ do nada ao nada. E agora me baixa Horácio (ou será Hovídio?) para lembrar que o homem é a soma das suas condições climáticas, é a soma do que se tem, uma problema de propriedades impuras que se desenrola fastidiosamente até o nada inexorável: desejo e pó.
Sem lastro, sem guia e a lembrança da breve, artificiosa vitória (esta, a misteriosa vitória? eu passo) que era falsa e eu não sabia, que não podia perdurar o meteoro cuja órbita já é queda, se inflama e extingue-se, a menos que não tivesse de ser assim, a menos que sob os escombros ainda seja a carne, sempre a velha carne, a voz do sangue que a tudo reivindica, inclusive o direito à dor ( a esta dor, a minha, a da filha, o ônus da primogenitura ) pessoal, intransferível e única dor, a de chorar o pai ( o único) enquanto agoniza (apenas uma vez ) e desta vez (de uma vez por todas) para sempre.

Post-Scripitum: O presente relato foi escrito a 26 de junho, um mês após o enterro, e 26 de maio do mesmo ano, na madrugada anterior à morte (que intuí inevitável, embora sem dados da realidade para comprová-lo) aproximadamente durante os momentos de agonia. De modo que esta oração fúnebre escreveu-se furiosamente, desenredando-se em sentido inverso, ou seja, para trás, para baixo e de costas (a despeito de mim) ¿ direto ao centro dilacerado e oculto da dor.





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